A investigação analisou 583 publicações do partido na rede social Facebook, complementadas por 92 vídeos, 17 entrevistas em meios audiovisuais e radiofónicos, 19 debates televisivos e outros aspetos relevantes das campanhas eleitorais de 2019, 2022 e 2024.
Segundo o estudo, a evolução da estratégia comunicacional é visível na gestão dos conteúdos publicados ao longo dos três ciclos eleitorais. Em 2019, o partido publicou 454 conteúdos, número que desceu para 232 em 2022 e voltou a aumentar para 273 em 2024.
Paralelamente, o volume de conteúdos excluídos pelas redes diminuiu de 199 para 56, indicador que a autora interpreta como sinal de maior seleção editorial e maturidade estratégica.
A investigação concluiu também que os principais eixos temáticos estabilizaram ao longo do período analisado: o populismo antissistema manteve-se dominante, representando cerca de 60% do discurso, enquanto os temas socioeconómicos ganharam maior expressão nas campanhas de 2022 e 2024.
Segundo a investigação, a consolidação eleitoral do partido foi acompanhada por uma crescente sofisticação das técnicas de comunicação digital, traduzida numa maior utilização de formatos audiovisuais, na adaptação às diferentes plataformas e numa estratégia orientada para maximizar o envolvimento dos utilizadores.
Em entrevista à Lusa, a autora da investigação, Ana Filipa Joaquim, afirmou que a profissionalização da comunicação digital do partido tornou-se particularmente evidente a partir das legislativas de 2022 e consolidou-se em 2024, sobretudo na gestão dos conteúdos publicados no Facebook.
“Aquilo que é publicado em 2024 no Facebook é completamente distinto de 2019”, afirmou, apontando como indicadores dessa evolução uma utilização mais consistente de ‘hashtags’, uma maior uniformização da linguagem e uma estratégia orientada para aumentar o alcance das publicações.
Segundo a investigadora universitária, a evolução observada resulta de um processo de “tentativa e erro”, em que o partido foi ajustando os conteúdos em função do envolvimento gerado nas redes sociais.
“Há aqui uma tentativa de encontrar o caminho através do ‘engagement’. Se determinada estratégia gera envolvimento, mantém-se; se não resulta, é abandonada”, explicou.
Na análise das técnicas de propaganda, a autora concluiu que a comunicação do partido assenta numa “gramática propagandística” relativamente estável, baseada na repetição de temas, no recurso a generalidades, na centralidade da liderança e na construção de uma dicotomia entre “povo” e “elites”, estratégias que se aperfeiçoaram à medida que o partido se institucionalizou.
O trabalho identificou igualmente uma estabilização dos principais ‘soundbites’ utilizados nas campanhas eleitorais.
Os termos associados à corrupção registaram 603 ocorrências no conjunto dos três atos eleitorais analisados, constituindo o principal eixo da comunicação do partido, seguidos por expressões como “vergonha”, “impunidade” e “portugueses de bem”.
A investigadora destacou ainda o crescimento da repetição de determinadas palavras e expressões nas três eleições.
“O aumento das palavras acusatórias e dos ‘soundbites’ é brutal”, afirmou, considerando que essa evolução constitui outro indicador da profissionalização do discurso e do posicionamento estratégico do partido no digital.
Desta forma, a comunicação digital do Chega evoluiu para uma estratégia integrada de ‘marketing’ político, adaptada às dinâmicas das plataformas digitais e assente numa crescente profissionalização das campanhas, levantando questões sobre o impacto destas práticas na qualidade do debate público e na integridade da informação.
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