Na defesa da proposta do Governo para isentar de IRS as compensações pagas às vítimas de abusos pela igreja católica, a secretária de Estado dos Assuntos Fiscais, Cláudia Reis Duarte, sublinhou a “matéria de especial sensibilidade” e defendeu que o diploma garante que “o sistema fiscal não desvirtua o seu [da proposta] propósito essencial, o de proporcionar uma resposta reparadora, nem impõe um ónus adicional a quem já carrega consequências que nenhuma compensação apaga completamente”.
Caso as compensações resultassem de uma decisão judicial a isenção fiscal ficava automaticamente assegurada, uma vez que isso mesmo já está previsto na lei, mas por se tratar de um acordo extrajudicial é necessário um diploma que garanta a exclusão de tributação das indemnizações.
Para além da proposta do Governo, cujo teor gerou consenso entre os diferentes partidos, o parlamento discutiu ainda projetos de lei do Chega, Bloco de Esquerda, Livre e um projeto de resolução do PAN, sendo que em relação às propostas do Chega e do Livre, o PSD levantou algumas objeções.
Chega e Livre querem que o regime tributário excecional criado para as vítimas da igreja católica possa ser alargado a outros casos de abusos sexuais ou abusos contra direitos fundamentais das pessoas, criando-se um princípio geral na lei para situações similares ao caso da igreja católica, evitando que se tenham que prever condições fiscais excecionais para reparações extrajudiciais às vítimas.
Os vários partidos e o próprio Governo mostraram-se disponíveis para que em sede de especialidade se possa chegar a um consenso sobre uma alteração legislativa abrangente, mas que defina critérios objetivos e delimitados, referiu a secretária de Estado, dando respaldo a dúvidas levantadas pelo PSD, nomeadamente sobre a formulação do projeto de lei do Chega.
A proposta do Chega prevê um mecanismo de compensação generalizado a situações de abuso sexual sempre que sejam cumpridos três critérios, um dos quais verificar-se que as reparações tenham por finalidade reparar danos que resultem de “atos suscetíveis de integrar crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual”.
Cláudia Reis Duarte referiu que quem determina o que são atos suscetíveis de integrar crimes são os tribunais, não o parlamento ou o Governo, pelo que seria de difícil aplicação a proposta do Chega para casos de compensações extrajudiciais.
A secretária de Estado dos Assuntos Fiscais defendeu que os critérios que venham a ser adotados para definir um mecanismo de aplicação generalizada têm que “ser claros para não haver abusos”, já depois dos alertas da deputada social-democrata Bárbara Correia sobre uma eventual porta aberta para fraudes e abusos.
Já perto do encerramento do debate, o deputado Hugo Carneiro, do PSD, reiterou distâncias para os projetos de lei do Chega e do Livre, mas afirmou que a proposta do Bloco de Esquerda para que se preveja no texto final a adotar um mecanismo de salvaguarda e retroatividade para eventuais casos em que já tenha havido lugar a pagamento de indemnizações e respetivos impostos.
O Governo anunciou a intenção de isentar em sede de IRS as compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica depois de a revista Sábado ter noticiado, em abril, que o valor pago como reparação pelos abusos não está isento de pagar impostos.
A Conferência Episcopal Portuguesa anunciou em março que cada uma das 57 vítimas de abuso sexual com pedido de compensação aprovado vai receber entre nove e 45 mil euros, num total de mais de 1,5 milhões de euros.

AR debate proposta para isentar indemnizações às vítimas de abusos na Igreja
A Assembleia da República debate hoje uma proposta de lei do Governo que isenta de tributação em sede de IRS as compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica.
Lusa | 06:13 – 11/06/2026



