Cerca de 36 horas depois de ter matado Henry Nowak, o jovem de 18 anos que foi esfaqueado e falsamente acusado de ter cometido um ataque racista, em dezembro passado, Vickrum Digwa admitiu ser responsável pelo crime, quando seguia com o irmão numa carrinha das autoridades, em Southampton, no Reino Unido.
Os irmãos, que estavam a ser transportados para o tribunal, no dia 5 de dezembro, foram gravados a conversar em panjabi sobre o crime. A transcrição em inglês foi mencionada pelos procuradores durante o julgamento do jovem de 23 anos, mas só foi divulgada esta quinta-feira pelo Ministério Público (CPS, na sigla inglesa).
Apesar de ter mentido à sua família e à polícia, a quem insistiu que tinha sido “vítima de um ataque racista”, Digwa confessou ao irmão, Gurpreet Digwa, que tinha esfaqueado Nowak.
“O que é que fizeste? Fizeste sequer alguma coisa?”, questionou o jovem de 27 anos. Desta feita, o irmão apontou para o ombro e replicou: “Uma aqui, na cara, e outra no peito.”
“Não o devias ter feito”, reagiu Gurpreet, de acordo com a BBC.
O irmão aconselhou-o ainda a dizer que agiu “em legítima defesa” e que estava “assustado”, antes de questionar quanto ao tipo de faca usada no crime.
“Devias ter-lhe dado um soco ou espancado-o”, atirou, além de ter sugerido que devia ter fugido.
Gurpreet perguntou ainda o motivo por que Vickrum usou o kirpan, uma pequena lâmina cerimonial que muitos sikhs estão legalmente autorizados a ter consigo enquanto símbolo de fé. No entanto, e de acordo com a Sky News, a comunidade sikh contestou a utilização do termo para descrever a arma do crime. De facto, o jovem terá usado uma adaga indo-persa tradicional, muito maior, para esfaquear o adolescente.
“Sou um idiota”, respondeu.
“Marajá [“grande rei” ou “soberano”], protege-nos/salva-nos a todos. Onde é que viemos parar… Reza com todo o coração, se não tiveres feito nada de mal”, disse Gurpreet, depois de o irmão se ter mostrado preocupado com a possibilidade de haver imagens de videovigilância.
“Onde é que vim parar, Marajá?”, exclamou, antes de invocar Waheguru, o nome sikh para Deus, e começar a rezar.
A reza prosseguiu durante cerca de dois minutos e meio, tendo terminado com as palavras: “Não fizemos nada de mal, Deus. Por favor, tem misericórdia de nós e protege-nos. Salva-nos a todos daqui e leva-nos para casa em segurança.”
Recorde-se que a mãe de Digwa, Kiran Kaur, removeu a faca que o filho usou do local do crime, pelo que foi considerada cúmplice e deverá ser sentenciada esta semana.
Vickrum, Gurpreet e o pai, Moga Singh, também enfrentam acusações relacionadas com posse de armas, incluindo a posse de 37 espadas, canivetes, um machado e oito soqueiras. Os homens declararam-se inocentes no início deste mês e a data do julgamento foi marcada para setembro.
De notar que vários políticos da extrema-direita europeia – incluindo o Chega, em Portugal – usaram o assassinato de Henry Nowak para propagar uma retórica populista sobre imigração, apesar dos apelos da família da vítima. No entanto, importa realçar que o autor do crime é um cidadão britânico que pertence à comunidade sikh, cujos líderes se demarcaram repetidamente das ações do jovem.
Nowak sofreu ferimentos nas pernas e uma facada fatal no coração, infligidos por uma lâmina de 21 centímetros que Digwa alegou ter empunhado em legítima defesa, depois de ter sido alvo de insultos e agressões.
O jovem, que mentiu às autoridades, foi condenado a prisão perpétua com uma pena mínima de 21 anos, no mês passado.
O caso gerou uma onda de contestação no Reino Unido, tendo ficado também marcado por desinformação. Aliás, uma ex-polícia foi obrigada a refugiar-se num local seguro, após ter sido falsamente acusada online de estar envolvida no homicídio. Christi Hill, que foi agente durante 12 anos, criticou as redes sociais e as plataformas de IA, incluindo o Grok de Elon Musk, por espalharem a falsa alegação de que foi um dos polícias que algemou Nowak.

Morte de Nowak. Lammy condena Vance: “Nada a ver com migração em massa”
O vice-primeiro-ministro do Reino Unido, David Lammy, contactou o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, para frisar que este estava “errado” quanto aos comentários que fez sobre o homicídio de Henry Nowak, e que não teve “nada a ver com migração em massa”.
Daniela Filipe | 16:58 – 07/06/2026



