“Já ninguém vive sem redes sociais. Eu própria não vivo, e o mesmo se aplica à esmagadora maioria das empresas e profissionais. O Facebook, o Instagram, o LinkedIn, o TikTok, o X – estas plataformas deixaram há muito de ser um espaço de passatempo para se tornarem parte integrante do modo como comunicamos, trabalhamos e até contratamos serviços.
E é precisamente neste último caso que quero deixar um alerta: o facto de toda a gente estar nas redes sociais não significa que toda a gente que se apresenta como especialista o seja de facto.
Existe um efeito perverso nesta presença massiva de marcas e de pessoas que passam a palavra online. É cada vez mais difícil para o consumidor distinguir quem é, de facto, um profissional qualificado e quem está apenas a vender uma imagem. Consumir conteúdos de entretenimento ou lifestyle? Isso, em princípio, não terá um efeito nocivo. O problema começa quando as redes sociais se tornam o canal através do qual procuramos um advogado, um médico, um contabilista, ou seja, profissionais que vão ter um impacto real e sério nas nossas vidas.
O que acontece, com uma regularidade que me preocupa, é que esses profissionais estão posicionados online, mas não estão identificados como tal, ou, pelo menos, não cumprem as regras jurídicas aplicáveis ao seu setor. São profissionais de saúde que comunicam ativamente nas redes, mas onde não conseguimos perceber se estão devidamente inscritos na respetiva Ordem ou Entidade Reguladora, nem que tipo de serviços e credenciais efetivamente possuem ou pessoas sem habilitação que se apresentam como profissionais de saúde. São, também, falsos juristas ou perfis que se promovem como especialistas em investimentos sem apresentar a credenciação exigida pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).
A resposta não é abandonar as redes sociais – isso seria ineficaz e, honestamente, irreal. A resposta é sermos profissionais mais conhecedores das obrigações legais e consumidores mais críticos, especialmente quando está em causa uma contratação. Assim, enquanto o profissional deve conhecer as regras de comunicação do seu negócio mesmo antes de o colocar online, o consumidor que vai contratar qualquer serviço encontrado nas redes sociais, deve confirmar quem é a entidade ou a pessoa que efetivamente vende esse serviço, verificar se tem website próprio e informação clara sobre a sua localização e certificar de que esse profissional está inscrito nas entidades reguladoras competentes da respetiva área de atividade.
As redes sociais são um espaço extraordinário de visibilidade e de conexão. Mas, como em qualquer espaço onde circula muita informação e muitos interesses, o espírito crítico é indispensável. Casa vez mais, o maior serviço que podemos fazer a nós próprios é lembrar que uma presença online cuidada não substitui competências reais e que verificar antes de contratar é, hoje, a primeira linha de defesa do consumidor.”



