Uma lei de 1978 obriga o Presidente e o vice-presidente dos Estados Unidos a declarar os rendimentos, bem como ativos que lhes pertençam.
De acordo com um cálculo efetuado pela agência France-Presse (AFP) com base nas 927 páginas de documentos publicados na terça-feira pelo Gabinete de Ética Governamental (OGE), o chefe de Estado norte-americano recebeu cerca de 550 milhões de dólares (482 milhões de euros) decorrentes das ligações à ‘start-up’ World Liberty Financial (WLF).
Esta plataforma de criptomoedas foi cofundada em setembro de 2024 pelos filhos de Donald Trump e pelo filho do enviado norte-americano para o Médio Oriente, Steve Witkoff.
A World Liberty Financial emitiu a sua própria criptomoeda, a WLFI, cuja venda inicial rendeu 550 milhões de dólares. Desde o início da sua cotação, em setembro de 2025, o valor caiu, no entanto, passando de 46 cêntimos por unidade para os atuais seis cêntimos.
As atividades do Presidente norte-americano no setor das criptomoedas são a principal razão para a quase triplicação do património pessoal, que passou de 2,3 para 6,5 mil milhões de dólares (2,02 para 5,7 mil milhões de euros) entre 2024 e 2026, de acordo com a revista Forbes.
Os Trump — Donald e os três filhos — também receberam, através de uma empresa intermediária, a DT Marks Defi, 22,5 mil milhões de WLFI adicionais, que valem atualmente cerca de 1,3 mil milhões de dólares (1,14 mil milhões de euros).
Em abril de 2025, a WLF também lançou no mercado a sua ‘stablecoin’, uma moeda digital cujo valor é lastreado numa moeda tradicional, neste caso, o dólar.
A declaração de rendimentos de Donald Trump refere ainda, além da WLF, os direitos de autor recebidos ao abrigo de um acordo de licença relacionado com a criptomoeda que leva o seu nome, a $TRUMP, lançada apenas algumas horas antes da sua tomada de posse, em janeiro de 2025.
Este valor adicional ascendeu a 635 milhões de dólares (556,53 milhões de euros), de acordo com o documento publicado na terça-feira pelo OGE.
Donald Trump, um antigo promotor imobiliário, é regularmente acusado de conflitos de interesses, nomeadamente por ter investido na indústria das moedas eletrónicas, ao mesmo tempo que, desde a sua tomada de posse, tomou várias medidas para desregulamentar o setor, fazendo disparar o preço dos ativos.
A Casa Branca rejeitou quaisquer preocupações de natureza ética.
“Nem o Presidente nem a sua família se encontraram — nem se encontrarão — em situação de conflito de interesses”, declarou Anna Kelly, porta-voz adjunta da Administração norte-americana, num comunicado transmitido à AFP.
Donald Trump “transformou orgulhosamente os Estados Unidos na capital mundial das criptomoedas”, acrescentou a porta-voz, sublinhando que as ações do Presidente e as da sua Administração “são levadas a cabo no interesse superior do povo americano”.
“Os chamados ‘jornalistas’ que afirmam o contrário limitam-se a reciclar a mesma narrativa falaciosa que os democratas e os meios de comunicação tradicionais vêm repetindo há uma década”, criticou Kelly.
Os rendimentos da primeira-dama, Melania Trump, também constam da declaração financeira do marido. Incluem mais de 10 milhões de dólares por um documentário que lhe é dedicado, transmitido na Amazon, e mais de 500.000 dólares (438,21 mil euros) pelo livro “Melania”.
Além dos rendimentos provenientes da WLF e da sua criptomoeda, Donald Trump também ganhou vários milhões de dólares graças às ações de várias empresas cotadas em bolsa, ativas no setor das criptomoedas, como a plataforma de câmbio Coinbase.
A isto acrescentam-se os ganhos provenientes de produtos com a marca Trump, que vão desde vestuário a autocolantes para para-choques — e mais de 208.000 dólares (182,3 mil euros) provenientes de bíblias vendidas em parceria com o cantor country Lee Greenwood.
Os ativos de Donald Trump estão depositados num fundo fiduciário administrado pelo filho, Donald Jr. No entanto, os estatutos do fundo preveem que a entidade possa ser dissolvida a qualquer momento, o que significa que o bilionário poderá retomar o controlo do mesmo, logo no final do segundo mandato, em 2029.
O vice-presidente JD Vance também viu os rendimentos aumentarem significativamente desde que se tornou o número dois da Administração Trump. Declarou direitos de autor no valor entre um milhão e cinco milhões de dólares (entre 880 mil e 4,38 milhões de euros) pelas suas memórias publicadas em 2016, “Hillbilly Elegy”.
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