O ex-ministro da Educação e histórico social-democrata David Justino lançou duras críticas a Luís Montenegro e à governação da Aliança Democrática (AD) que, na sua opinião, não é reformista, “só quer sobreviver”.
Em entrevista à Renascença, o braço direito de Rui Rio, na altura em que este era líder do PSD, recusa que o atual Executivo seja reformista e teme que o partido seja “trucidado” nas próximas eleições.
“A maior parte daquilo a que chamam reformas neste Governo são medidas pontuais. Não há uma sistematização e uma estratégia para articular as diferentes medidas e os seus efeitos de modo a que possa constituir uma reforma. Altera-se um artigo, um decreto e diz-se que aquilo é uma reforma. Eu tenho reservas quanto a isso. O conceito de reforma tem de ser bem esclarecido. O primeiro-ministro pode estar convencido de que está a fazer reformas, mas julgo que a maior parte das medidas que toma não são reformas”, defendeu, apesar de admitir que o trabalho de Montenegro no Governo não foi uma surpresa.
“Conhecia o Luís Montenegro das lutas internas no PSD, mas também muitos daqueles que rodeavam o Luís Montenegro e que hoje estão no Governo. E, portanto, tinha sempre aquela dúvida metódica: será que eles vão conseguir ou não? Estaria a mentir se dissesse que tinha plena confiança nisso. Temos de dar uma margem para sermos muitas vezes surpreendidos. Mas não fiquei nada surpreendido”, confessou.
No entanto, David Justino, espera que o atual Governo ainda se “reinvente”, para o PSD não cair na situação “inimaginável” de ser “trucidado” com um terceiro lugar nas próximas eleições.
“O atual Governo ainda está a tempo de poder reinventar-se e encontrar algumas soluções que respondam a essa necessidade. O grande risco que estamos, neste momento, a enfrentar é o PSD transformar-se na terceira força política. Eu nunca vi isto. Com alguma proximidade com a segunda [Chega], a continuar por este caminho, [o PSD] transformar-se-á, precisamente, numa terceira força política à distância. Transformar o PSD na terceira força política é algo inimaginável”, atirou, acrescentando que a oposição cresce “porque há má governação”.
“Em vez de estarmos a atribuir culpas à oposição, ao Chega, ao Partido Socialista [há que começar por dizer que] eles crescem porque há má governação. Se não houvesse má governação, eles não cresciam tanto. Os portugueses são suficientemente inteligentes para perceber quando é que há ou não uma boa governação”, atirou, lembrando o resultado das últimas sondagens.
“Quando isto acontece perante um adversário à sua esquerda e um inimigo à sua direita, o PSD arrisca-se a ser trucidado. Aliás, as sondagens apontam para a perda progressiva de eleitorado à esquerda e à direita”, referiu.
Questionado sobre a possibilidade de um entendimento entre PSD e o PS, para fazer frente ao Chega, David Justino é claro.
“Não sei se há essa vontade de entendimento. Agora, a ameaça é real, é. Julgava que PS e PSD já deveriam ter pensado muito seriamente sobre isso. O PSD fez uma aliança real com o Chega, durante o seu primeiro governo e isso deixou marcas, nomeadamente, relativamente ao problema da imigração. Depois, percebeu que o Chega não é gente de confiança. E, acima de tudo terá percebido — porque o taticismo é tal que eu nunca sei se percebeu ou se não percebeu — que tem à sua esquerda um adversário que segue as regras do jogo. E que tem à sua direita um inimigo, que só consegue crescer à custa da destruição do próprio PSD”, reiterou, assegurando que se pudesse escolher, escolhia aliar-se ao adversário.
Educação. “Se é uma reforma, se calhar é uma má reforma”
Sobre a pasta da Educação, que conhece bem, David Justino recusa a ideia que o atual ministro, Fernando Alexandre, tem defendido que está a reformar o ensino português.
“Se isso é uma reforma, se calhar é uma má reforma”, atirou na entrevista à Renascença, argumentando que o grande problema da educação em Portugal é a “má qualidade das aprendizagens e isso revela-se nos estudos internacionais”.
“Há uma crise generalizada da aprendizagem. Para ter melhores aprendizagens, para que os resultados não possam ser tão assustadores como são, temos de começar nos anos iniciais”, enfatizou.
E vai mais longe, salientando que problemas como os que ocorreram nos exames nacionais poderiam originar uma demissão.
“Neste Governo, houve uma alteração da orgânica do Ministério, que, na minha opinião, não correu bem. Foi-se longe demais. Uma parte da massa crítica que sustentava o resultado do Ministério foi praticamente relegada para as escolas. Faziam lá falta — também é necessário dizer isto —, mas, no fundo, houve aqui um esvaziamento. Os exames e a colocação de professores são dois processos em que se deve ter o máximo de cuidado possível. Porque, para além de envolverem muita gente e o funcionamento das escolas, têm prazos muito apertados. Se há uma falha a meio, tudo o resto é um efeito dominó […]. ualquer ministro cai por uma razão desta”, notou, adiantando que não só não avançava para a digitalização dos exames como esta foi feita como, na sua opinião, esta não valeu a pena.
“Teve demasiados custos e, acima de tudo, lidou com riscos que toda a gente sabia que podiam ser aproveitados por quem não quer a reforma”, atirou.

Revisão constitucional? Montenegro diz contar com PS, sem excluir ninguém
O presidente do PSD afirmou hoje que vai contar com o PS na próxima revisão constitucional, defendendo que a história é importante, mas avisou que não irá excluir ninguém, prometendo respeitar os limites materiais da Lei Fundamental.
Lusa | 23:04 – 29/09/2026



