O vice-presidente do conselho de supervisão do BCE, o holandês Frank Elderson, disse hoje em Bali que “o desafio para a resiliência operacional dos bancos não se limita à inteligência artificial”, referindo que “a computação quântica já se vislumbra no horizonte e poderia estar amplamente disponível até 2030”.
“Hoje em dia, é possível recolher e armazenar informações sensíveis e criptografadas com a expectativa de que os avanços tecnológicos futuros permitam decifrá-las”, o que é conhecido como “recolher agora, decifrar mais tarde”, afirmou Elderson, que é membro do comité executivo do BCE.
Dessa forma, os atacantes podem roubar e armazenar hoje dados codificados para os decifrar no futuro, quando estiverem disponíveis máquinas quânticas suficientemente potentes.
Por isso, o responsável enfatizou que “para antecipar esses avanços, os supervisores precisam de colaborar cada vez mais com especialistas que vão muito além do setor financeiro”, em particular especialistas em criptografia e computação quântica.
A computação quântica é um risco para a criptografia, que já é muito utilizada nos bancos para proteger transações e para controlar o acesso a vários sistemas e serviços.
Em poucos anos, a computação quântica poderia chegar a poder quebrar a criptografia atual, ou seja, um computador quântico com potência suficiente poderia aceder a transações protegidas ou interromper serviços bancários.
Os especialistas concordam que a transição para uma criptografia que possa resistir à computação quântica também levará vários anos, ou seja, levará anos para desenvolver e implementar novos algoritmos matemáticos resistentes a ataques quânticos.
Por isso, Elderson diz que a preparação deve começar já, para que a computação quântica não avance mais rapidamente que a criptografia atual.
Dessa forma, poderiam ser protegidas infraestruturas críticas de diferentes setores, como o financeiro, as redes elétricas e o da saúde, por exemplo.
As criptomoedas armazenadas em endereços antigos ou com chaves públicas expostas poderiam ser roubadas se os protocolos da rede não forem atualizados.
As autoridades supervisoras europeias – EBA (bancos), EIOPA (seguros e pensões) e ESMA (mercados) – advertiram recentemente que os computadores quânticos podem tornar-se muito rapidamente num risco real.
Na sua atualização de riscos de outono, publicada em 23 de setembro, os supervisores europeus dizem que a computação quântica “poderia gerar riscos importantes ao minar os sistemas criptográficos amplamente utilizados para proteger comunicações, transações, bases de dados e redes de cadeias de blocos”.
A computação quântica, que processa informações usando as leis da física quântica em vez da eletrónica clássica, é outro campo tecnológico em rápido desenvolvimento como a inteligência artificial (IA).
A utilização da mecânica quântica permite processar problemas matemáticos complexos a uma velocidade impossível de atingir com os computadores clássicos.
Os ‘bits’ da computação clássica podem estar em 1 ou em 0, mas apenas um estado de cada vez, enquanto os ‘bits’ quânticos (o ‘qubit’) podem ter os dois estados simultaneamente, permitindo realizar várias operações ao mesmo tempo, de acordo com o número de ‘qubits’.
Apesar dos riscos, os supervisores europeus reconhecem que a computação quântica “poderia transformar em breve o setor financeiro em áreas-chave através da otimização dos processos financeiros, da supervisão da fraude e do cumprimento normativo, bem como da fixação de preços”.
Num momento em que se fala em travar o desenvolvimento da inteligência artificial, os supervisores já começam a advertir que o risco quântico pode ser real mais rapidamente do que qualquer aplicação comercialmente viável.
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