O secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, referiu-se este domingo ao discurso de Luís Montenegro, na noite de sexta-feira, no Pontal, como um “discurso de auto-justificação e de censura àqueles que realizam o escrutínio do seu Governo”, considerando que o Governo não tem sabido responder às crises.
“Não é a primeira vez; já em 2025, um dos alvos da AD no seu comício no Pontal foi precisamente o jornalismo livre, plural e independente”, apontou no início discurso no arraial popular que marca a rentrée do PS, em Olhão.
O líder do PS considerou que, sobre “a alegada obra que diz já orgulhar-se” Luís Montenegro, “alguém tem de dizer ao primeiro-ministro que o rei vai mesmo nu”.
“O Governo e o primeiro-ministro não deram até hoje prova de conseguir reagir, responder com capacidade, com sensibilidade e com competência às crises que têm assolado o país e que têm colocado em causa a segurança das pessoas e que têm posto em causa a previsibilidade da capacidade de resposta do Estado”, continuou.
“Os exemplos são muitos”, refere, começando por citar o apagão, os incêndios de 2025, mas também as tempestades: “Governo reagiu tarde, reagiu mal.”
De seguida, e já depois de ter deixado uma palavra, no início do discurso, para todos os alunos e escolas que viram a sua vida “adiada” por uma decisão “irresponsável” do Governo e por “um primeiro-ministro que ontem não teve a humildade democrática de lhes deixar uma palavra de solidariedade e de reconhecimento pela falha grave que o Governo teve na decisão imponderada e irresponsável que adotou”, o líder do PS focou-se nos problemas em torno dos exames nacionais.
“O que para nós foi mais evidente foi notar a insensibilidade e a capacidade para reconhecerem as suas próprias responsabilidades políticas”, criticou. “O Governo quis avançar imponderadamente com a digitalização dos exames. Criou uma crise de previsibilidade e prejudicou os jovens, as famílias, as escolas de todo este país.”
Para o secretário-geral do PS, o Governo descartou, depois, responsabilidades e está agora a “ameaçar as escolas”.
Carneiro decidiu também chamar a atenção de Luís Montenegro para a “insensibilidade” do que se está a passar nas funções nevrálgicas do Sistema de Segurança Interna. “Exige o mais elevado sentido de Estado ao primeiro-ministro e o primeiro-ministro não pode lavar as mãos como se nada tivesse que ver com a degradação da confiança nas instituições que são essenciais para a salvaguarda do Estado de Direito democrático”, apontou.
De seguida, o líder do PS voltou-se para a economia: “O Governo e a AD prometeram uma economia a crescer mais de 3%. Quando ela crescia a 3% com os Governos do PS, diziam que Portugal estava a ser ultrapassado pelo país do leste europeu”, sublinhou.
“Em 2025, Portugal teve um défice superior a 30 mil milhões de euros na balança comercial de bens e perdeu mais de cinco mil milhões de euros de investimento direto estrangeiro”, continuou, contrariando o discurso de Luís Montenegro na sexta-feira. “Os dados são públicos e Portugal não ganhou competitividade, Portugal perdeu competitividade em 57% dos mercados externos e isto coloca em causa o progresso e o futuro.”
“É recorrente que o dr. Luís Montengro, para retirar a atenção daquilo a que tem de responder, procure colocar o olhar dos portugueses lá longe no horizonte em 2034, quando ele já não tiver de prestar contas aos portugueses. Essa é uma tática política à qual nós não vamos ceder”, garantiu, acrescentando ter perguntas para deixar hoje ao primeiro-ministro.
Uma delas tem a ver com a compra de 13,7% da rede elétrica nacional: “Qual é a fonte de financiamento e qual é o valor da compra?”, questionou.
“Está em condições de garantir aos portugueses que a posição que o Estado agora vai comprar permite ao Estado determinar e participar na definição estratégica da rede elétrica nacional? São perguntas que deve responder com clareza”, continuou José Luís Carneiro.
Ressalvando que o PS sempre se mostrou favorável à participação em empresas consideradas estratégicas, Carneiro recordou ainda as declarações de Montenegro na sexta-feira sobre a TAP e anotou “uma certa ironia” por o primeiro-ministro ter mostrado “um certo contentamento pelos resultados que aparentemente vão resultar do processo de privatização de uma parte do capital da TAP” depois de terem estado “contra a assunção de responsabilidades por parte do Estado” no período da pandemia.
Noutro campo, o secretário-geral do PS considera também que o primeiro-ministro deve explicações aos portugueses sobre o negócio entre a Moeve e a Galp. “É um dever responder aos portugueses”, insistiu.
Considerando que o Governo está “sem rumo estratégico”, José Luís Carneiro estranhou também que, num discurso de 47 minutos, Montenegro não se tenha chegado a referir à saúde: “Mostra bem como o primeiro-ministro está desligado da realidade das portuguesas e da realidade dos portugueses.”
Lembrando que, na campanha de 2025, Luís Montenegro prometeu médicos de família para todos, reduzir tempos de espera para a primeira consulta, diminuir listas de espera para cirurgias e também reduzir listas de espera para cirurgias oncológicas: “Foram quatro promessas e o dr. Luís Montenegro falhou a todas.”
“Se olharmos para a habitação, o cenário não é melhor”, aponta, referindo que em dois anos o custo com a mesma aumentou 28%. Para Carneiro, se Portugal é um dos países da União Europeia onde o custo com a habitação mais aumentou, “isso deve-se às políticas erradas do Governo, que em vez de responder do lado da oferta, procurou responder do lado da procura”.
PS vai pedir apreciação parlamentar do diploma da nova lei orgânica do INEM
O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, anunciou hoje que os socialistas vão pedir a apreciação parlamentar do diploma que aprova a nova lei orgânica do INEM, considerando que reduz meios e ameaça a segurança do socorro.
“Quero aqui dizer que procuraremos fazer na Assembleia da República a apreciação parlamentar deste diploma, porque isto é grave em relação à segurança do socorro às populações”, declarou.
Carneiro desafia Governo a apresentar “OE competente”
O secretário-geral do PS defendeu hoje que o primeiro responsável pela estabilidade política é o Governo, que tem de apresentar um “Orçamento competente”, desafiando o primeiro-ministro a dizer se está disponível para uma revisão constitucional com o PS.
No discurso da rentrée do PS, hoje num arraial popular em Olhão, distrito de Faro, José Luís Carneiro fez várias perguntas ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, uma das quais sobre o anúncio da aquisição pelo Estado de 13,7% da REN, pretendendo saber “qual é a fonte de financiamento e qual é o valor da compra”.
“A primeira responsabilidade para a construção da estabilidade política do nosso país é do Governo, que tem de apresentar um Orçamento [do Estado] competente e que sirva os interesses do nosso país”, defendeu.
Para o líder do PS, “o principal responsável pela instabilidade, pela imprevisibilidade e pela insegurança, tem sido o Governo da AD”, defendendo que os socialistas têm dado o seu contributo para “a estabilidade e para o desenvolvimento do país” já que “a cada crítica” apresentam também propostas.
“Há um dever que só ao Governo incumbe e esse dever é de apresentar uma proposta de Orçamento que seja competente e que responda aos problemas das pessoas, que responda à vida das pessoas. Essa é uma responsabilidade do Governo. Essa não é uma responsabilidade do Partido Socialista”, considerou.
[Notícia atualizada às 22h55]
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