O Ministério Público tinha pedido para ser retirado o passaporte a Zapatero, que o ex-primeiro-ministro fosse proibido de deixar Espanha e que tivesse de se apresentar quinzenalmente às autoridades.
Embora admitindo que se mantêm indícios de possíveis delitos, o juiz rejeitou aplicar medidas cautelares a Zapatero, como as que pediu o Ministério Público, considerando, numa decisão citada pelos meios de comunicação social espanhóis, que está em causa uma pessoa de notoriedade pública, “o que dificulta de maneira evidente” qualquer eventual intenção de fuga à justiça.
Além do Ministério Público, tinham pedido a aplicação de medidas cautelares as “acusações populares”, que integram o Partido Popular (PP, direita), o Vox (extrema-direita) e associações como Faz-te Ouvir (Hazte Oír).
Advogados destas associações, ligadas também à extrema-direita espanhola, defenderam, em declarações aos jornalistas à porta da Audiência Nacional, que Zapatero deveria ficar em prisão preventiva, por haver risco de fuga.
Jose Luis Rodriguez Zapatero foi hoje ouvido durante três horas por um juiz, numa sessão inicialmente prevista para dois dias, mas que ficou já concluída esta quarta-feira.
“Acusam-me de delitos muito graves que nunca cometi”, disse Zapatero, num comunicado divulgado após o final do depoimento na Audiência Nacional de Espanha.
O antigo primeiro-ministro e ex-líder do Partido Socialista Espanhol (PSOE) garantiu ter entregado ao juiz documentos que provam a sua inocência e disse que sempre se comportou com “decência e honra”.
Zapatero disse ser “completamente inocente” e confiar “plenamente na justiça”.
O político socialista está a ser investigado num processo que foi “aberto para investigar o resgate da companhia aérea Plus Ultra”, em 2021, disse a Audiência Nacional de Espanha, instância central de investigação.
De acordo com o sumário do processo judicial, a que a agência Lusa teve acesso, Zapatero é suspeito de liderar “uma estrutura estável e hierarquizada de tráfico de influências” para obter “benefícios económicos” através de “intermediação e o exercício de influências em instâncias públicas em favor de terceiros, principalmente, a empresa Plus Ultra”.
A investigação suspeita ainda da utilização de empresas e documentação simulada “para exercer influências ilícitas” e lavar dinheiro, nomeadamente, ocultar a origem e o destino de verbas, incluindo uma empresa de que são administradoras e sócias as filhas de Zapatero.
A Plus Ultra, com ligações à Venezuela, beneficiou em 2021 de um resgate financeiro de 53 milhões de euros, concedidos como empréstimo pelo Governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, que na altura criou um fundo de dez mil milhões de euros para resgatar empresas consideradas estratégicas que estavam com dificuldades por causa da pandemia de covid-19.
Primeiro-ministro de Espanha entre abril de 2004 e dezembro de 2011, Zapatero foi entretanto também indiciado por fraude fiscal e contrabando por, durante buscas no escritório que tem em Madrid, terem sido encontradas num cofre joias avaliadas em 1,3 milhões de euros não declaradas como património.
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