Hoje, na festa das colheitas da cidade de Rezekne, de forte minoria russófona, no leste da Letónia, os candidatos às eleições legislativas de 03 de outubro multiplicam as suas promessas, mas a maioria dos eleitores diz que não precisa do socorro de Moscovo.
“Não precisamos de ajuda, aqui: podemos resolver os nossos problemas por nós próprios”, disse Igors Nazarovs, de 45 anos, em declarações à agência de notícias francesa AFP, enquanto uma orquestra local animava a rua principal da cidade, situada a 50 quilómetros da fronteira russa.
Inquirido sobre as recentes afirmações do Presidente russo, Vladimir Putin, segundo o qual os direitos dos russófonos estão a ser “desrespeitados” nos países bálticos, Nazarovs rejeitou o argumento, sublinhando: “Aqui, é uma cultura à parte, uma terra à parte”.
Ao longo dos séculos dominada pelos Cavaleiros Teutónicos (ordem militar cruzada católica fundada em 1190), pela Polónia, pela Suécia e pela Rússia, a Letónia adquiriu pela primeira vez a independência em 1918.
Embora os primeiros russos se tenham instalado no país ainda no século XVII, a sua chegada em massa ocorreu durante a anexação soviética (1944-1990), marcada pela deportação de dezenas de milhares de letões – um passado que ainda alimenta fortes tensões.
Hoje, os falantes de russo representam mais de um terço dos 1,8 milhões de habitantes deste país membro da NATO e da União Europeia (UE); na região oriental, Latgale, constituem quase metade da população.
Em Daugavpils, a segunda maior cidade do país — com cerca de 80 mil habitantes, dos quais 90% são russófonos —, Inna Plavoka recorda-se bem do início da guerra desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022.
“A 24 de fevereiro [de 2022], a minha vida dividiu-se num ‘antes’ e num ‘depois’. (…) Hoje, identifico-me claramente com a Letónia e com este país, de forma alguma com a Rússia”, declarou.
Para a editora-chefe do órgão de comunicação independente Tchaïka (Gaivota), cada vez mais russófonos pensam como ela.
Apesar de afirmar ter conhecido, em 2022, pessoas que acreditavam que Putin viria à Letónia “para salvá-las”, oferecendo-lhes o “Russki Mir” (que tanto significa “mundo russo” como “paz russa”), atualmente não conhece ninguém que lhe dissesse “Sim, é isso que quero”.
“Toda a gente entende com o que rima esse ‘mundo russo'”, observou, acrescentando que as recentes quedas de drones em território letão também mudaram o estado de espírito das pessoas.
A divisão continua, no entanto, a ser geracional.
Nas instalações da associação Comunidade Russa da Letónia, Alekseï Vassiliev, candidato do partido russófono Harmonia às legislativas do próximo sábado, apontou para retratos de Lenine e Estaline pendurados nas paredes.
“É a história das pessoas que viviam na União Soviética”, justificou.
Embora afirmando-se ligado à Letónia, criticou a situação dos “não-cidadãos”, pessoas que, por não terem obtido aprovação nos exames de língua e história letãs, apesar de serem residentes permanentes – na maioria, falantes de russo -, não possuem nem a nacionalidade letã nem outra.
Estes representam ainda cerca de 9% da população da Letónia e continuam privados do direito de voto.
Se votassem, formariam “o maior grupo parlamentar no Saeima (parlamento)”, afirmou o candidato, que condenou também as medidas adotadas por Riga desde 2022 para reduzir a influência russa, desde a generalização do ensino em letão à remoção de monumentos soviéticos.
Durante muito tempo fiel ao partido Harmonia (Saskana), que perdeu a representação parlamentar em 2022, o eleitorado russófono vota atualmente de forma mais dispersa, apoiando mais os partidos que canalizam o voto de protesto ou que representam os seus interesses.
Em Latgale, a região mais pobre da Letónia — país que, por sua vez, é o mais pobre dos três Estados bálticos —, a ajuda à Ucrânia é frequentemente criticada por uma parte da população russófona, devido às dificuldades económicas locais, sem que isso, no entanto, se traduza em apoio ao Kremlin.
Procurando conquistar este eleitorado, Vjaceslavs Stepanenko, líder da lista local do partido populista Suverena Vara (Poder Soberano), acusado pelos detratores de simpatias pró-Rússia, criticou duramente o custo desse apoio a Kiev.
“Seria bom que essa ajuda dos países europeus fosse para nós”, afirmou.
A poucos metros dali, distribuía panfletos o deputado Juris Vilums, da Lista Unida, partido de centro-direita que integra o Governo.
Liderado pelo primeiro-ministro, Andris Kulbergs, este partido leva a dianteira nas sondagens e deverá liderar a futura coligação, mantendo a orientação política da Letónia.
Para Vilums, a influência do Kremlin persiste devido à falta de alternativas.
“O grande problema (…) é a propaganda”, explicou, sublinhando que os habitantes nas zonas fronteiriças captam estações de rádio da Rússia ou da Bielorrússia.
Quanto aos “não-cidadãos”, mostrou estar consciente dos desafios da integração, afirmando: “Uma parte dos russófonos já está integrada (…), outra parte não está, e temo que nunca venha a estar”.
No total, são 1.557.615 os eleitores recenseados na Letónia, mas pelo menos 110.000 já votaram e outros poderão ainda votar antecipadamente, encontrando-se as urnas abertas durante algumas horas para o efeito desde 28 de setembro e até sexta-feira, 02 de outubro.
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