Aproxima-se a data da discussão da moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo, na sequência das várias polémicas que têm envolvido o nome do ministro da Administração Interna, Luís Neves. Este fim de semana, os partidos têm continuado a criticar a permanência do ministro Luís Neves no Executivo – mas nem por isso se colocam ao lado da iniciativa do Chega. Porquê?
A moção já tem rejeição garantida, uma vez que precisaria de 116 votos a favor para ser aprovada e fazer cair o Governo, e André Ventura já reagiu: disse que o expectável chumbo da moção de censura ao Governo de PSD/CDS-PP resulta de “uma espécie de esquizofrenia de coragem” na política portuguesa.
“Se o Chega está no centro das atenções é porque os outros [partidos] não tiveram nem coragem nem a capacidade de perceber que este era um assunto que não tinha que ver com discussão meramente política, não tinha que ver com discordar do ministro A ou do ministro B, tinha a ver com isto: decência. Onde não há decência, não há democracia. Onde não há decência, não há liberdade”, afirmou André Ventura este sábado, em declarações aos jornalistas à entrada de uma iniciativa de ‘rentrée’ da distrital de Lisboa do partido Chega, que ocorreu no concelho de Loures.
“Há nisto da política portuguesa uma espécie de esquizofrenia de coragem, que é: todos, quando veem que o Chega tem razão, ‘vamos lá atrás dele’, que é para não perder a opinião pública. Mas como é que votam agora? Contra”, atirou o líder do Chega.
A moção de censura do Chega ao Governo de PSD/CDS-PP, motivada pela continuidade em funções do ministro da Administração Interna, Luís Neves, devido às polémicas que envolvem o seu nome enquanto foi diretor da Polícia Judiciária, vai ser discutida pelo parlamento na próxima terça-feira, prevendo-se que seja inviabilizada.
Mas se não apoiam a moção… que dizem os partidos?
O Bloco de Esquerda (BE) insistiu este sábado que Luís Neves “deixou há muito de ter condições para ser ministro” e considerou que a moção de censura apresentada pelo Chega legitima “a má governação do Governo”.
Num comunicado, a Comissão Política do BE aponta que as contradições no caso que envolve o ministro da Administração Interna, Luís Neves, “têm-se aprofundado de forma incontornável” nos últimos meses.
“Incapaz de explicar as contradições ou garantir a legalidade dos seus atos, Luís Neves deixou há muito de ter condições para ser ministro”, aponta este organismo do partido.
No entender do partido, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, tem segurado Luís Neves por duas razões: “Primeiro, porque Luís Montenegro, fragilizado pelo caso Spinumviva, fez da opacidade o padrão ético do seu Governo. Segundo, porque o Governo tem procurado aproveitar o caso Luís Neves para esconder a má governação nas mais diversas áreas – de que são exemplo o caos nas escolas e nos hospitais.”
Para o Bloco de Esquerda, a moção de censura apresentada pelo Chega “escolhe ignorar todos estes problemas, legitimando a má governação do Governo”.
Assim, e “contra essa política do caos”, o BE diz encontrar “na oposição inequívoca ao governo o caminho para a construção de uma alternativa”.
O secretário-geral do PCP considera que o Governo “deixou-se arrastar” pelas polémicas em torno do ministro da Administração Interna e disse que Luís Neves tem muitas explicações para dar.
“Nós há muito tempo que dizemos que o problema hoje já não é um problema do ministro Luís Neves, é um problema do Governo, o Governo deixou-se arrastar para este processo, e portanto a responsabilidade deixou de ser do ministro Luís Neves, passou a ser de todo o Governo, e portanto precisará de conclusões desse processo”, afirmou durante o segundo dia da Festa do Avante!, considerando que “algo tem que ser feito”.
Na ocasião, o secretário-geral do PCP foi questionado novamente como é que o partido vai votar na terça-feira a moção de censura, e disse que a decisão está tomada, mas recusou avançar essa informação durante a Festa do Avante!. Ainda assim, voltou a criticar a iniciativa do Chega por ser centrada nas polémicas que envolvem Luís Neves e não a política do Governo.
“Independentemente das explicações que o ministro tem que dar e tem que dar, e muitas, convenhamos que o problema do Governo e o problema das nossas vidas não é apenas aquele ministro […] Portanto, nós temos que avaliar o conteúdo, mas também temos que avaliar a forma”, afirmou.
Raimundo disse que “o Governo, a sua política, merece censura” mas recusou alimentar “a demagogia, o folclore do Chega”.
Ainda na sexta-feira, a líder da Iniciativa Liberal acusou o primeiro-ministro “amarrar o próprio futuro” ao do Ministro da Administração Interna e desafiou Luís Montenegro a questionar os restantes ministros sobre se estão confortáveis com “o problema” Luís Neves.
“É o primeiro-ministro que tem o poder de demitir Luís Neves, se não o fizer é sobre si que cai esse ónus, ele está, no fundo, a amarrar o seu próprio destino ao destino de Luís Neves, é isso que ele quer para a sua governação, é isso que ele quer para o seu governo?”, afirmou e questionou.
Quanto à moção de censura do Chega ao Governo, Mariana Leitão repetiu que a IL vai votar contra: “Nós já determinámos que vamos votar contra a moção de censura, não vamos para resolver um problema criar outro ainda maior”, explicou.
E continuou: “O que está em causa é o ministro Luís Neves, Ministro da Administração Interna. Aquilo que neste momento o primeiro-ministro tem de fazer é garantir que demite Luís Neves para resolver de uma vez por todas este problema. Esta é a nossa posição”, disse.
Também na sexta-feira, o secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, recusou responder sobre o sentido de voto do seu partido na moção de censura, optando por focar a sua mensagem política na questão fiscal em torno dos combustíveis.
“Nessa altura, terça-feira, falaremos sobre esse tema”, insistiu. “Não queimemos etapas, terça-feira terão todas as respostas.”
Da última vez que tinha tocado no assunto, ainda antes da confirmação de que o Chega avançaria mesmo com a moção, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, assegurou que não será pelo seu partido que haverá uma “crise política” em Portugal. No entanto, insistiu que o primeiro-ministro “tem de assumir” a “responsabilidade” na polémica em torno do ministro da Administração Interna.
“Nós contribuiremos para a estabilidade política do país e não será pelo PS que haverá crise política em Portugal”, disse na altura, em Maputo, quando foi questionado pela Lusa sobre a possibilidade de a moção de censura ao Governo admitida pelo Chega avançar, numa altura em que Ventura ainda não tinha falado.
Já hoje, o secretário-geral do PSD, Hugo Soares, disse que a moção de censura do Chega é “completamente deslocada da realidade” e que André Ventura quer “estar constantemente nas televisões”.
Para Hugo Soares, o objetivo do Chega é pôr o país a “falar daquilo que verdadeiramente não interessa. É pôr o Chega no centro do debate político, que é isso que o deputado André Ventura gosta e sabe fazer, como ninguém, diria, e estar constantemente nas televisões para que se fale dele”, sublinhou.
O líder parlamentar do PSD acrescentou não estar disponível para esse debate, mas disse estar disponível para falar dos problemas que afetam a vida das pessoas, e para procurar, naquilo que diz respeito ao PSD, “encontrar as soluções”.
A moção de censura do Chega vai ser a primeira ao XXV Governo Constitucional e a terceira a executivos PSD/CDS-PP liderados por Luís Montenegro. O documento intitula-se “Pelo fim de um Governo sem autoridade política, incapaz de assumir responsabilidades e de garantir confiança nas instituições” e visa responsabilizar o primeiro-ministro pela manutenção no Governo do ministro da Administração Interna.

Luís Neves é ouvido no Parlamento 3.ª-feira (antes da discussão da moção)
A audição está marcada para as 10h00, enquanto que o debate da moção de censura apresentada pelo Chega arranca nessa tarde, às 15h00.
Tomásia Sousa | 17:27 – 04/09/2026



