O La Vanguardia escreveu, esta segunda-feira, 14 de setembro, sobre o “pressionado” Luís Montenegro e o seu “manual da resistência portuguesa”.
De acordo com o jornal espanhol, com o anúncio de cortes no IRS e suplemento para pensionistas, o primeiro-ministro “ganhou tempo para o seu governo minoritário ao neutralizar a moção de censura da extrema-direita, liderada por André Ventura, “no âmbito de uma ofensiva cada vez mais intensa para liderar a direita portuguesa”.
Para o jornalista Anxo Lugilde, Luís Montenegro “conseguiu desviar a atenção do ministro da Administração Interna, que se encontrava em dificuldades”, com os anúncios de cortes nos impostos sobre o rendimento da classe médica e do “bónus” para os reformados.
Além disso, “como era esperado”, notou ainda a publicação do país vizinho, “os socialistas livraram Montenegro das consequências e ele saiu do debate mais ileso do que o previsto”.
Recorda o La Vanguardia que, em abril de 2024, Montenegro “chegou ao poder com pouco mais de um terço das cadeiras, 80 em 230”, um número que aumentou para 91 em maio de 2025, mas que ainda assim está “longe de ser suficiente para formar a tão desejada maioria”.
O líder da Aliança Democrática (AD) tornou-se assim, segundo o jornal espanhol, “especialista em ganhar tempo a todo custo”. E, “agora precisa disso mais do que nunca”, uma vez que sofreu “uma queda significativa” no apoio, perdendo cerca de seis pontos percentuais, segundo as últimas sondagens, “com várias delas a colocá-lo “em terceiro lugar, atrás do socialista José Luís Carneiro e do líder do Chega, André Ventura”.
Para o La Vanguardia, “o fiasco do partido do primeiro-ministro na primeiro ronda das eleições presidenciais, em janeiro, com o candidato apoiado pelo PSD a ocupar um humilhante quinto lugar, marcou o início de um ano que está a ser desastroso para Montenegro, cuja popularidade também sofreu devido à gestão pouco diligente do Governo em relação à catástrofe causada pela tempestade Kristin no centro do país”.
Seguro dá “fôlego”, Passos Coelho tira
Porém, “a eleição, em fevereiro, do socialista António José Seguro como chefe de Estado, que assumiu o cargo prometendo pôr fim ao ‘frenesim eleitoral’ dos últimos anos em Portugal e com um compromisso com a estabilidade institucional, deu novo fôlego a Montenegro”.
Um “impulso” que Anxo Lugilde defendeu ser “extremamente necessário”, numa altura em que “o principal rival externo de Luís Montenegro, o candidato de extrema-direita, André Ventura, chegou à segunda volta das presidenciais” e há uma “guerra interna”, no PSD, “cada vez mais acirrada”, com o “seu antigo mentor e agora seu maior crítico ideológico”, o conservador Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro entre 2011 e 2015, a liderá-la.
O La Vanguardia recorda ainda os diferentes “escândalos” em que Montenegro se viu envolvido. Da Spinumviva à reforma laboral, a viagem ao Mundial em plena época de incêndios e agora a polémica em volta do seu “ministro estrela”, Luís Neves, que está a ser “investigado pelo Ministério Público (MP) entre outros órgãos portugueses, devido à gestão da Polícia Judiciária, força que chefiou até fevereiro”.
Nota o jornal espanhol que Luís Neves é “tão amado pela Esquerda quanto desprezado pela extrema-direita” e o Chega encontrou nele a “munição” para sua nova ofensiva contra o Governo da AD.
“Essa ofensiva inclui a moção de censura rejeitada na última terça-feira pelo Parlamento, resultado da abstenção do Partido Socialista. O seu atual líder, José Luís Carneiro, seguindo o exemplo de seu colega de partido, o Presidente da República, também rejeita categoricamente novas eleições, neste caso com o objetivo de fortalecer sua posição”, evidencia o La Vanguardia.
Para se distanciar, quer do Chega, quer do PSD, defende a publicação espanhola, “Carneiro declarou que sua abstenção foi, na realidade, ‘um voto de desconfiança’ no Governo, uma declaração que passou praticamente despercebida no meio da cobertura mediática do pacote de ajuda de 800 milhões de euros anunciado por Montenegro”.
Antes de terminar a sua análise ao Executivo português, Anxo Lugilde recorda o livro de Pedro Sánchez “Manual da Resistência”. Nele, o primeiro-ministro espanhol “explica que foi durante uma visita a Lisboa, para se encontrar com o então primeiro-ministro socialista António Costa, que encontrou a fórmula que lhe permitiu formar a coligação que o levou ao poder em 2018 e deu início aos seus oito anos de sobrevivência cada vez mais angustiante”.
“E agora Montenegro vive uma versão prática, portuguesa e de direita do manual da resistência, com quase dois anos e meio de um Governo minoritário, que procura, constantemente, ganhar tempo”, conclui o jornalista.
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