Tinha 28 anos em setembro de 1976 e já era militante quando foi à primeira Festa do Avante!, realizada então no espaço da antiga Feira Internacional de Lisboa (FIL). Estava no último mês de gravidez e, por isso, não lhe foram atribuídas pelo partido as tarefas de organização que viria a assumir em edições posteriores.
Sobre esse ano, recorda que o evento “excedeu as expectativas”, que toda a gente “estava a viver um espírito de liberdade” e que, de tantas pessoas que se deslocaram até à festa, “não cabia um grãozinho de nada” no recinto.
A gravidez impediu-a de usufruir plenamente do programa, mas recorda que os camaradas fizeram por lhe facilitar a vida e que, apesar de o espaço parecer pequeno para tamanha adesão, “estava tão barriguda que as pessoas deixavam passar à frente”.
Diz que, depois de anos na clandestinidade, parecia “impensável fazer uma coisa daquelas” e foi ao Avante! com “muita vontade de ver os militantes e os dirigentes do PCP que passaram anos nas prisões, conhecê-los pessoalmente”. “Ver e sentir aqueles seres humanos”, enfatiza, em conversa com a Lusa.
A Festa do Avante! vai este ano para a sua 50.ª edição e Luísa esteve em todas. Logo em 1977, no segundo ano do certame, começou a desempenhar uma função na organização que manteria durante várias décadas: era responsável pelo acompanhamento de delegações de partidos estrangeiros e de artistas internacionais.
“Todos me passaram pelas mãos”, afirma Luísa, a quem competia, entre muitas tarefas, ir buscar os convidados ao aeroporto, levá-los ao hotel, assegurar o seu transporte para a festa e gerir deslocações para fora do recinto. Resumindo, “resolver tudo o que era preciso a nível operacional”.
Luísa Ramos, que trabalhava como hospedeira de terra na TAP, recebendo e embarcando passageiros, acabou por acompanhar a evolução da geopolítica mundial através das suas funções de apoio à chamada “Cidade Internacional” da festa.
“União Soviética, República Democrática Alemã, tudo aquilo que existiu e depois que acabou. Estavam cá todos”, sublinha a militante, que fala francês e inglês. Além dos antigos países socialistas europeus, a Festa do Avante! recebia – e continua a receber – delegações da América Latina (Cuba, Venezuela, Brasil, por exemplo), dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), da África do Sul ou da China.
Os partidos comunistas que estavam no poder na Europa, descreve, tinham uma atitude mais severa e os soviéticos, em particular, “eram de morte”. “Não eram malcriados, não eram arrogantes, […] mas eram formalmente corretos”, acrescenta a militante comunista, contrapondo essa atitude à de brasileiros e cubanos, com quem “era uma festa estar”.
Recorda também delegações de partidos que viviam na clandestinidade ou representantes exilados na Europa, citando os casos de partidos da Palestina, África do Sul e Líbano.
O acompanhamento não se limitava à festa. Algumas delegações faziam visitas a outras regiões do país em articulação com as estruturas locais do PCP, para conhecer em particular as autarquias com presidentes comunistas. Parte dessas deslocações no terreno incluía, por exemplo, visitas para conhecer o funcionamento de serviços de higiene urbana dos municípios.
Havia o “cuidado de não nos armarmos em dirigentes” e não dar opiniões políticas em nome do partido, recorda.
Se um delegado estrangeiro questionava sobre a situação política portuguesa, Luísa Ramos desviava a questão e respondia sem dar azo a desenvolvimentos: “Aproveite essa pergunta para fazer no encontro que vai ter [com dirigentes do PCP]”.
“Não é falta de liberdade. Eu não estou formatada. Eu penso o que digo, digo o que penso e às vezes penso mal”, explica.
Com os artistas, recorda um episódio a envolver o cantor brasileiro Alceu Valença, que se estreou em Portugal no Avante! de 1984. O artista e a sua comitiva “fizeram questão de ir visitar a festa toda” antes de atuar, numa longa interação com os muitos militantes com quem se iam cruzando. “E eu tive de andar com eles”.
Lembra-se também de uma cantora norte-americana, cujo nome tem memorizado, que repetia várias vezes “amazing, it’s amazing” [fantástico, é fantástico]. O que mais surpreendia quem vinha de fora, diz, era perceber como é que o PCP, um partido “que não estava no poder, não tinha grande influência eleitoral, não estava em nenhum Governo, organizava aquilo”.
Durante muitos anos, lamenta, apenas foi à festa no comício de encerramento. “Há militantes que não veem a festa”, refere, acrescentando que considera “extremamente injusto o militante, que esteve na construção, ao ter de estar a garantir o funcionamento não vê nada”.
Hoje, já reformada, garante que vai à 50.ª edição da festa comunista, entre 4 e 6 de setembro, agora como visitante, e mantém o compromisso de sempre com o certame. “Nunca consegui, ainda hoje, e hoje estou reformada, marcar férias, marcar saídas, marcar viagens ao fim de semana da festa. Impensável. Nem que me oferecessem”, garante.
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