Militante do PCP desde 1969, era na altura responsável pelo setor da saúde de Lisboa do partido. Depois de alguns anos de militância na clandestinidade e já após a Revolução de Abril, surgiu a oportunidade de “associar a responsabilidade política à responsabilidade clínica”, conta à Lusa.
Participou em todas as festas e mantém desde 1976 a responsabilidade de liderar a equipa de profissionais de saúde que se voluntariam para trabalhar no posto médico do evento. Da primeira edição, recorda que liderou um grupo “não muito organizado” – pelo menos não tanto como os que apoiam a festa nos últimos anos – montado sobretudo para resolver “pequenas coisas”.
O clima desses dias, porém, veio pôr à prova a estrutura médica montada na antiga Feira Internacional de Lisboa (FIL): “Caiu uma carga de água monumental […] que obrigou a que aquelas milhares de pessoas que estavam cá fora tivessem de entrar” para um espaço que “estava já bastante cheio”, recorda.
A certa altura, diz, “não se podia quase circular, as pessoas andavam quase sem os pés no chão”. Uma confusão com consequências médicas: “Houve muitos desmaios, muita gente a sentir-se mal por causa do aperto e daquela multidão”, conta, acrescentando que esses episódios acabaram por “dar algum trabalho do ponto de vista clínico”.
Nessa festa inaugural, quando não tinha de trabalhar, João Camilo conta que “passeava e espantava-se” a olhar para os ‘stands’, percorrer os pavilhões, assistir a espetáculos e a ver a “alegria das pessoas que viveram reprimidas e sem expressão num país que era muito negro e que se tornou de repente num país cheio de cor”.
Ao longo dos 50 anos a servir o partido numa festa que caracteriza como um “oásis de solidariedade, de espírito coletivo e de entreajuda”, passaram pelas mãos de João Camilo “muitos milhares de pessoas” e, com elas, o mesmo número de histórias – tantas que tem dificuldade em destacar alguma. Do ponto de vista médico, porém, escolhe falar de dois anos marcantes: 1982 e 2020.
Na década de 80, ainda o Avante! se realizava no Alto da Ajuda, a chuva torrencial voltou a molhar a festa comunista. “As pessoas enterravam-se em lama quase até ao joelho”, recorda João Camilo, referindo que coube à equipa médica dar respostas a “inúmeras entorses e fraturas”.
“Foi um ano terrível, nesse ponto de vista. Mais ortopédicos do que outros”, resume.
De 2020, guarda a memória de uma festa fantástica no meio de um “ano horrível para Portugal e para os portugueses”, durante a pandemia de Covid-19. A decisão de se manter o Avante! foi polémica não só fora do partido – no que caracteriza como uma “vaga de ódios e tentativas de dizer mal” – como dentro, onde admite ter havido dúvidas.
“Mesmo até dentro do partido houve quem hesitasse e quem duvidasse”, diz o médico, que considera que foi tomada a “decisão correta” e recorda todas as medidas sanitárias que fizeram com que, diz, “não houvesse um único caso” na Quinta da Atalaia.
Ao fim de 50 edições, o posto que lidera passou de “incipiente” para uma operação que, segundo o próprio, apesar de funcionar mais como centro de triagem do que de grande assistência, “é capaz de estar a funcionar melhor do que a maior parte dos centros de saúde do país”.
A escala é incomparável com a de 1976, participando atualmente mais de 30 médicos, cerca de 50 enfermeiros e outros profissionais de apoio, organizados por turnos e articulados com as unidades de saúde da região.
Em troca, João Camilo nunca viveu totalmente a festa como visitante, apesar de os turnos permitirem que se liberte, por alguns períodos, das suas funções clínicas: “Nunca gozo verdadeiramente a festa”, admite, referindo que muitas vezes aproveita mais os dias de preparação por haver mais tempo para a convivência com seus camaradas que constroem o recinto.
Aos 79 anos, com uma vida dedicada ao PCP, que incluiu uma passagem pela Assembleia da República como deputado entre 1989 e 1991, reconhece que a edição deste ano será uma das últimas em que desempenha a função de sempre. “Estou-me a aproximar da última, sim”, afirma, frisando que, embora haja alguma insistência para que continue, ficará apenas enquanto se sentir capaz
“Mais uma, duas vezes”, antevê, assegurando, sem dramatizar, que “há muitos outros” preparados para lhe suceder.
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