Carlos Brito, um histórico dirigente (e depois dissidente) do Partido Comunista Português (PCP), morreu na quinta-feira, na sua casa em Alcoutim, no distrito de Faro, aos 93 anos. Após a sua morte, as opiniões acerca do seu legado dividiram-se.
O PCP, partido ao qual Carlos Brito pertenceu durante 48 anos, como funcionário, membro do Comité Central, líder parlamentar, diretor do jornal “Avante!” e candidato à Presidência da República, divulgou apenas um comunicado de apenas 28 palavras “a pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito”.
“Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”, lia-se na nota.
Por outro lado, o Bloco de Esquerda (BE) apresentou um voto de pesar, evocando a “resistência à ditadura, que lhe custou oito anos nas prisões do regime, 15 anos à frente da bancada parlamentar do PCP e o papel na convergência das Esquerdas”.
Em declarações ao Notícias ao Minuto, Fabian Figueiredo, deputado único do BE, sublinhou que Carlos Brito “dedicou toda a sua vida à construção de um país mais justo e solidário”, fazendo-o em “condições muito difíceis”.
“Lutou contra a ditadura, o que o privou cerca de oito longos anos da sua liberdade. Conheceu as principais prisões políticas do regime e evadiu-se de forma espetacular da prisão do Aljube”, recordou.
Além disso, “no pós-25 de Abril destacou-se como um ilustre intelectual”, sendo deputado constituinte e deputado à Assembleia da República durante vários anos.
“Era uma voz muito ouvida, seja por quem concordasse com as ideias de Carlos Brito, seja de quem discordasse dele. Por isso, neste momento difícil, neste momento de perda, o Bloco de Esquerda só podia homenagear o seu percurso, enquanto lutador pela liberdade e construtor da democracia portuguesa”, destacou.
O partido recordou, também, o seu “trabalho intelectual e a sua dedicação abnegada ao povo português, nomeadamente à região e ao povo do Algarve”.
“Foi por essas razões todas que apresentámos o voto de pesar. Porque se existe democracia em Portugal, se existe parlamentarismo democrático, deve-se isso também à ação ativa de Carlos Brito”, acrescentou.
Além do voto de pesar do BE, apresentado no sábado, também o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, avançou com uma iniciativa semelhante, prestando tributo pelo seu legado de combate político e contributo “ímpar” no percurso democrático.
A decisão, para o BE, é “mais do que natural”, tendo em conta que “Carlos Brito foi deputado constituinte, foi deputado à Assembleia da República durante 15 anos e foi líder parlamentar”.
“Carlos Brito deixa saudades em aliados e adversários políticos, por isso reconhecer o seu percurso é profundamente natural”, sublinhou Fabian Figueiredo, ao Notícias ao Minuto.
O voto de pesar será votado na sessão plenária do Parlamento de sexta-feira, 15 de maio, esperando-se que seja “aprovado por unanimidade”.
“Os deputados constituintes ocupam um lugar especial na nossa democracia. É mais do que natural que o voto de pesar seja aprovado por unanimidade”, referiu.
Questionado sobre a posição do PCP, o bloquista foi taxativo: “Os momentos de pesar, de falecimento, são momentos de consternação, de dor, de saudade. A propósito da morte de Carlos Brito eu só posso saudar a sua vida, o seu percurso cívico, a sua dedicação pela convergência das forças progressistas”.
Comunicado do PCP (com 28 palavras) alvo de críticas
O curto comunicado do PCP, “a pedido de vários órgãos de comunicação social, sobre o falecimento de Carlos Brito”, foi alvo de críticas, incluindo por figuras ligadas ao partido.
Helena Pato, resistente antifascista e antiga militante do PCP, considerou que “nada justifica” a reação do partido. “Eles não esquecem e não perdoam! É a incompatibilidade atávica (das direções do PCP) com a crítica que parta dos quadros do partido, sejam eles da base ou do topo! Sei do que falo. O costume, já não estranho, mas ainda me estremece, e não desisto de esperar a mudança, operada por algo talvez previsível”, atirou, numa publicação na rede social Facebook.
Já Porfírio Silva, deputado do Partido Socialista (PS), afirmou que “a morte de Carlos Brito, além da perda que representa, destapou um buraco negro do sectarismo que as organizações fechadas sobre si mesmas alimentam”.
“Deparei-me, nesta ocasião, com um fenómeno deplorável: a tentativa de reduzir os que saíram, os que criticaram, os que dissidiram, à condição de traidores ou despeitados. Verifiquei isso mesmo entre comunistas de quem sou amigo sincero há décadas, o que me entristeceu profundamente”, adiantou numa nota no Facebook.
João Soares, antigo deputado e ministro socialista e filho de Mário Soares, foi mais longe e defendeu que o comunicado do PCP é “repugnante”.
“Li com espanto, e com profunda tristeza, esta nota do PCP sobre a morte de Carlos Brito. Eu nunca fui, nem serei, do PCP. Nem comunista. Considero esta nota repugnante. E um triste e lamentável sinal do estado em que está o PCP”.

Carlos Brito: Aguiar-Branco destaca “contributo ímpar” com voto de pesar
O presidente da Assembleia da República tem um voto de pesar pela morte do antigo líder parlamentar do PCP Carlos Brito, prestando tributo pelo seu legado de combate político e contributo “ímpar” no percurso democrático.
Lusa | 16:16 – 11/05/2026



