“Durante onze meses, a vida encarrega-se de construir uma identidade sólida à nossa volta. Somos gestores, pais, líderes, professores, empresários ou colaboradores, acordamos ao som de notificações, organizamos reuniões, resolvemos problemas e corremos atrás de objetivos. O calendário decide por nós e o contexto empurra-nos para a frente, criando a sensação de que sabemos exatamente quem somos e para onde vamos. Mas quem somos quando deixamos de ser necessários?
Julho e agosto chegam e tudo muda. As reuniões desaparecem, os horários tornam-se flexíveis e as exigências diminuem. Pela primeira vez em muito tempo, voltamos a ter a tão desejada liberdade. Mas também é verdade que é nesta altura que, paradoxalmente, muitas pessoas descobrem que não sabem o que fazer com ela. Já lhe aconteceu?
A sociedade vende-nos a ideia de que as férias são sinónimo de descanso, desconexão e recuperação, mas e se existir um outro fenómeno, ou uma outra perspetiva, mais interessante? As férias não são apenas um intervalo na rotina, são uma experiência psicológica rara, quase um laboratório comportamental, onde os mecanismos que organizam a nossa vida deixam temporariamente de funcionar e onde os nossos padrões mais profundos ganham espaço para emergir.
Perguntas inesperadas. Respostas profundas
Porque é que algumas pessoas se sentem inquietas ao fim de dois dias sem compromissos? Porque é que tantos casais, depois de anos a gerir uma família e uma casa, descobrem que já não sabem conversar sem uma agenda pelo meio? Porque é que algumas pessoas regressam das férias renovadas e cheias de projetos, enquanto outras regressam com uma vaga sensação de vazio e com a perceção de que alguma coisa precisa de mudar?
A Programação Neurolinguística, área que estuda a forma como construímos a nossa experiência interna através da linguagem, das emoções e dos padrões mentais, ajuda-nos a compreender um fenómeno pouco discutido: grande parte daquilo que pensamos ser a nossa personalidade é, na verdade, o resultado de automatismos desenvolvidos ao longo dos anos.
Quem sobra?
Ou seja, não vivemos apenas segundo aquilo que queremos, vivemos, sobretudo, segundo aquilo a que nos habituámos. Habituámo-nos a preencher todos os espaços vazios, habituámo-nos a confundir ocupação com propósito e produtividade com identidade e habituámo-nos tanto ao movimento constante que, quando a velocidade abranda, emerge uma pergunta inquietante: “Se retirarmos tudo aquilo que faço, quem sobra?”.
Algumas pessoas olham para esse momento como uma oportunidade para descobrir novos sonhos, fortalecer relações e redefinir prioridades. Outras sentem-se desconfortáveis perante a possibilidade de perceber que estão há demasiado tempo a adiar decisões importantes ou a viver uma vida que já não corresponde às suas aspirações.
Qual destes dois é o espelho das suas férias?
Na linguagem da Programação Neurolinguística, falamos frequentemente de metaprogramas de aproximação e de afastamento. Uns movem-se pelo desejo de conquistar, crescer e experimentar, enquanto outros são impulsionados pela necessidade de evitar problemas, frustrações e perdas. Curiosamente, as férias funcionam como um espelho para ambos.
Para quem vive orientado para a aproximação, o verão representa a possibilidade de explorar novas experiências, recuperar sonhos esquecidos e construir uma visão mais clara do futuro. Para quem funciona sobretudo por afastamento, este período pode trazer uma consciência mais intensa daquilo que falta, da distância entre a vida que tem e a vida que gostaria de viver e dos custos invisíveis de continuar a adiar mudanças importantes.
Educar a escolha
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a verdadeira liberdade não começa quando desaparecem as obrigações, mas quando somos capazes de escolher conscientemente o que fazer sem depender delas. Só que poucos foram educados para essa escolha.
Passamos anos a aprender matemática, línguas e competências técnicas, mas quase ninguém nos ensina a identificar aquilo que nos entusiasma genuinamente, quais são os nossos valores ou de que forma construímos significado para a nossa vida. Aprendemos a cumprir objetivos definidos por outros, mas raramente desenvolvemos ferramentas para descobrir os nossos próprios objetivos.
A mais importante função das férias e as suas personagens
É por isso que o desenvolvimento pessoal deixa de ser um luxo ou uma tendência e passa a ser uma competência essencial para o século XXI. Vejo isso, diariamente e há anos consecutivos, com milhares de pessoas que, à superfície, procuram melhorar resultados profissionais, desenvolver competências de liderança ou aumentar a sua performance, mas por detrás dessas ambições existe quase sempre uma questão mais profunda e universal: “Como posso construir uma vida que faça sentido para mim?”.
Curiosamente, a resposta raramente aparece em momentos de grande intensidade. Surge durante uma caminhada sem destino, numa conversa longa ao final da tarde ou numa manhã sem despertador, porque são esses momentos que criam espaço para pensar naquilo que queremos conquistar e, ao mesmo tempo, naquilo que já não queremos continuar a perder.
As férias têm essa capacidade extraordinária de desmontar as personagens que representamos ao longo do ano e deixar-nos frente a frente com a pessoa que existe por trás delas. E esta é uma das funções mais importantes das férias. Não a de nos afastar da realidade, mas a de nos aproximar dela.”



