O governador do Banco de Portugal rejeitou a ideia de um “milagre económico” em Portugal e defende o regresso ao debate de uma reforma laboral – recentemente chumbada no Parlamento – e da implementação de reformas em geral para garantir que o país continua a crescer.
“Antes da crise financeira, estivemos 20 anos quase sem crescer, crescemos bem abaixo de 1%, e isso levou-nos onde nos levou. Neste momento, com crescimentos de cerca de 2%, estamos a falar de uma economia que, claramente, está bem melhor do que estava nos anos após termos aderido ao euro e nesses anos, até a crise financeira, e um pouco depois”, defendeu Álvaro Santos Pereira, em entrevista ao Sob Escuta do Observador, divulgada esta quinta-feira.
Considera, no entanto, que isso não se trata de um “milagre” e que ainda é preciso mais. “Quer isso dizer que somos um milagre económico? Não, não somos. Estamos, como economia, a crescer de uma forma moderada. Precisamos de crescer mais”, referiu.
“Para crescermos mais, precisamos de reformas. Para reformas, precisamos ter vontade política para fazer, ou então consenso entre os principais partidos. É por isso que é tão importante deixarmos de lado, muitas vezes, este interesse partidário e pensar quais as reformas que o país precisa para nos pôr a crescer mais. Porque precisamos de crescer mais, se não crescemos mais, os nossos filhos e os nossos netos, porventura, não vão ficar cá”, alertou o governador.
Álvaro Santos Pereira recordou ainda que “o Banco de Portugal mostrou um estudo em que a emigração rondou entre os 15% e os 18%, dos mais jovens, e muitos deles são altamente qualificados” e elaborou: “Estamos contentes com uma solução em que 15% ou 20% dos nossos jovens vão para o estrangeiro?” Eu próprio saí e, portanto, gostaria de dizer que não sou contra que as pessoas vão lá para fora, trabalhem, estudem, etc. É bom para abrir horizontes e também é bom para ficarem melhores profissionais, sem dúvida nenhuma. Mas temos de criar as condições para que regressarem”.
“É por isso que acho fundamental essas reformas, para pormos o país a crescer mais. 2% não é suficiente, e a nível per capita, rondar 1%, isso quer dizer que o nosso rendimento per capita vai demorar 70 anos para duplicar. Quer dizer que nenhum de nós vai ver grande melhoria significativa nos nossos rendimentos per capita nos próximos anos. É por isso que é preciso crescer mais, é por isso que precisamos da reforma”.
Álvaro Santos Pereira elenca como exemplos: “reformas estruturais que os outros países continuam a fazer, e que já não fazemos há alguns anos”. “Os países fazem reformas em várias áreas exatamente para tentar melhorar o seu desempenho económico. Os países que são mais bem-sucedidos são países que habitualmente gostam de inovar e são países que têm uma atitude reformista. Muitas vezes quando se fazem reformas não é à primeira que se acerta, às vezes pode ser à segunda ou à terceira, ou tem de se ajustar as reformas e as reformas das reformas, isso acontece muitas vezes. O que gostaria que nós voltássemos é exatamente pensar a nível global e com o maior consenso possível quais são as reformas que nos poderão tornar mais competitivos e ajudar a melhorar a produtividade”, justificou.
Questionado sobre a reforma laboral, respondeu que já defende isso mesmo “há muitos anos”. “Aliás a OCDE faz a mesma coisa, e vários bancos centrais falam sobre esta matéria, eu defendo um modelo de flexisegurança, ou seja, eu defendo que tem de haver maior flexibilidade, mas protegendo mais o trabalhador, ou seja, dá-se mais flexibilidade no posto de trabalho, mas protege-se mais o trabalhador. É isto que foi feito há uns anos, há mais de 20 anos, na Suécia, na Dinamarca e em outros países”, explicou, acrescentando: “Muitas vezes essas reformas, quer sejam laborais, quer sejam a nível de pensões, são reformas que são debatidas com os sindicatos, com os patrões, os governos, as autarquias, para tentar chegar a um consenso e ver quais são as melhores práticas internacionais”.
“Como trabalhei muitos anos na OCDE, gosto quando os países olham para as melhores práticas internacionais e tentam adotar essas melhores práticas. A nível laboral, claramente o modelo flexisegurança é o modelo que está a dar na Europa mais resultado. Gostaria que nós voltássemos a esse debate. Segundo, há um país que neste momento está a avançar com as reformas, espero bem que vá para a frente, que é a Alemanha, a nível das pensões, que pode ser algo muito importante para países como Portugal e certamente para o resto da Europa”, deu como exemplo.
Sobre se os grandes partidos conseguiriam chegar a um acordo comum para uma reforma das pensões, o governador sublinhou ser importante não esquecer “que existe algo maior que o interesse partidário, que é o interesse nacional”. A nível das pensões, não vejo o mínimo de problemas de haver um acordo. Temos que debater, temos que ver quais são as melhores práticas, mas eu penso que há possibilidade de o fazermos“, considerou ainda.
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