Depois de uma manhã marcada pelos discursos de Rui Tavares, e dos candidatos à direção do Livre Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto, a discussão das moções de caráter específico decorreram ao longo de três horas, num ambiente morno, sem grandes divergências, até à intervenção de Martim Freitas.
O membro do partido subiu ao púlpito para apelar ao voto contra duas moções: uma que propõe a criação da “Rede GEI – Género, Emancipação, Interseccionalidade” no partido, e outra de uma Linha de Contacto, Acolhimento e Solidariedade Ativa do Livre, intitulada CASA, para apoiar pessoas que sejam alvo de discurso de ódio.
Martim Freitas alertou que o partido cria estruturas e depois não lhes dá continuidade, dando como exemplo a rede de autarcas, criada em outubro “mas que ainda não está a funcionar”, avisando: “Não chega plantar a semente”.
Esta intervenção levou a que quatro dirigentes do núcleo duro do partido pedissem a palavra.
Safaa Dib foi a primeira a classificar esta crítica como “injusta e descabelada”, admitindo que a rede ainda não está a funcionar em pleno mas “ainda está a dar os primeiros passos”.
A dirigente Joana Alves Pereira, autarca em Lisboa, subiu ainda mais o tom: “É preciso ter muito cuidado quando se abre a boca para falar, não é só vir aqui mandar umas bocas”.
O deputado Paulo Muacho defendeu que o Livre “está a crescer e precisa de responder aos problemas” que encontra.
Defendendo que é preciso “melhorar o que está mal”, o parlamentar apelou a um trabalho conjunto: “Não é uns fazerem e outros ficarem a criticar”.
Também o dirigente Tomás Cardoso Pereira, que substituiu Isabel Mendes Lopes no Parlamento durante um mês, sustentou que a rede de autarcas “precisa de uma dinamização maior, mas para construir este projeto não vale só ficar no protesto”.
O chefe de gabinete do Livre na Assembleia da República assinalou que “construir coisas demora tempo, dá trabalho, e é preciso empenho”.
“Enquanto autarca, conto contigo Martim”, apelou.
Por seu turno, Afonso Ferreira afirmou que “é bastante frustrante quando as pessoas não fazem e não deixam fazer”.
Ao longo da tarde, sucederam-se as intervenções para apresentar as 49 moções de caráter específico relativas ao funcionamento interno do partido.
Paulo Muacho defendeu a necessidade de rever os estatutos do partido, referindo que “são os mesmos desde a fundação do Livre, tiveram apenas pequenas alterações”, e defendeu que deve ser tentado “consenso mais amplo possível”.
A moção que subscreve defende o estabelecimento de uma metodologia, que comece com a constituição de uma comissão de revisão estatutária e termine com a realização de um congresso estatutário.
Tomás Cardoso Pereira defendeu que uma alteração dos estatutos “já faz falta ao partido”.
Joel Rodrigues levou ao congresso o tema das eleições presidenciais, defendendo que nas últimas, em que o partido decidiu apoiar Jorge Pinto — que se candidata agora a porta-voz do partido –, na sequência de uma consulta interna não vinculativa, algumas “pessoas sentiram que a decisão não foi a mais democrática”.
O dirigente do Livre propõe que em 2031 exista “uma eleição interna aberta a toda a esquerda” e admitiu que, se o partido assim entender, poderá até apoiar a reeleição do atual Presidente da República, António José Seguro.
A também deputada Patrícia Gonçalves, que preside aos trabalhos, defendeu que a rede e poder local do Livre deve ser cooperativa, reforçando a ligação do partido às comunidades e também entre os vários núcleos.
Hélder Sousa, que foi candidato do partido à Câmara do Porto, considerou “absolutamente essencial dotar os autarcas de ferramentas políticas para que sejam pontas de lança contra a extrema-direita”.
A grande maioria das moções sobre o funcionamento interno do partido debruçou-se também sobre o tema dos núcleos territoriais, com os membros e dirigentes a pedir maior autonomia, nomeadamente financeira.
Os trabalhos do 17.º Congresso do Livre, que decorre em Sintra, seguiram com a apresentação e discussão de mais 33 moções de caráter específico, desta vez as programáticas.
Leia Também: Oposição pede maior democracia interna e critica “fechamento” do Livre



