Atrás dos altos muros que rodeiam o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Cabul, alinham-se agências de viagens, embaixadas e, num grande painel publicitário de uma companhia aérea, o ‘slogan’: “Estamos todos ligados”, reporta a agência de notícias France-Presse (AFP).
Embora poucos afegãos possam viajar para o estrangeiro, por falta de dinheiro ou de visto, o Governo talibã “procura estabelecer relações com todos os países”, disse o porta-voz, Zabihullah Mujahid, numa conferência de imprensa em julho.
A estratégia adotada? Receber o máximo de enviados estrangeiros, sem esquecer de publicar amplamente as fotografias. Enviados da China, Japão, Turquia, Arábia Saudita ou Reino Unido e de outros países foram recebidos em Cabul este ano.
“Os países da região e os Estados vizinhos têm uma importância particular, porque as nossas economias e interesses estão estreitamente ligados”, sustentou.
Em abril, os vice-ministros dos Negócios Estrangeiros do Uzbequistão e do Quirguistão, bem como representantes do Turquemenistão, Tajiquistão e Cazaquistão, participaram numa reunião em Cabul. Alguns destes países da Ásia Central, sem acesso ao mar, procuram desenvolver rotas comerciais através do Afeganistão para chegar depois a portos no Irão ou no Paquistão.
Para Erica Gaston, que fez parte, até 2024, de uma equipa encarregada pelo Conselho de Segurança da ONU de identificar estratégias para fazer face aos desafios no Afeganistão, os países da região “foram sempre mais pragmáticos” nas relações com os talibãs.
Estão mais inclinados a dizer: “Esta é a realidade da nossa região e estabelecer relações é inevitável”, prosseguiu a responsável, que dirige atualmente o Programa para a Prevenção de Conflitos e uma Paz Sustentável no Centro de Investigação Política da Universidade das Nações Unidas.
Além de uma coordenação em matéria de segurança com alguns destes países, os talibãs apoiam grandes projetos de infraestruturas transfronteiriças para dinamizar uma economia fragilizada pelo regresso de milhões de migrantes afegãos e pelos cortes na ajuda internacional. Assinaram também contratos mineiros com empresas chinesas, quirguizes ou azerbaijanesas, embora os investidores continuem cautelosos.
Os talibãs são reconhecidos apenas pela Rússia e o país não tem acesso ao sistema bancário internacional.
Apesar disso, responsáveis talibãs viajam para o estrangeiro, como a delegação recebida em Bruxelas em junho para conversações com cerca de 15 países da UE sobre o repatriamento de afegãos, cujo pedido de asilo foi rejeitado, para grande desagrado de organizações de defesa dos direitos humanos.
“Os que não têm direito a permanecer na Europa devem ser repatriados”, declarou à AFP um porta-voz da UE. A Alemanha, na linha da frente, expulsou pela primeira vez em julho um cidadão afegão que não tinha sido condenado por qualquer infração penal, confirmou o ministro do Interior, Alexander Dobrindt.
Com o tempo, “cada vez mais países aceitam que esta é uma realidade”, a de que os talibãs governam o Afeganistão, “mesmo que seja uma realidade de que não gostam”, observou Gaston.
A maioria dos países evita, contudo, aprofundar as relações enquanto não verificar mudanças, nomeadamente no que diz respeito à proibição, única no mundo, de as raparigas prosseguirem os estudos além do ensino primário.
Exercer influência sobre as autoridades “depende das questões abordadas”, referiu uma fonte da ONU em Cabul.
“Alguns domínios são quase impenetráveis, mas noutros somos capazes de fazer progressos”, afirmou a mesma fonte, dando como exemplo as interações com as autoridades no combate ao narcotráfico ou na ajuda humanitária.
Muitos países tentaram este ano desempenhar o papel de mediadores quando o Afeganistão e o Paquistão entraram em guerra aberta: China, Qatar, Arábia Saudita, Omã, Irão, Turquia, Uzbequistão e Malásia, segundo a ONU.
A Índia, inimiga “número um” do Paquistão, reforçou os laços com Cabul, conseguindo mesmo um levantamento temporário das sanções para que o ministro dos Negócios Estrangeiros afegão, Amir Khan Muttaqi, pudesse deslocar-se em visita.
Em junho, Nova Deli sugeriu uma reflexão sobre as sanções contra alguns dirigentes talibãs (proibição de viajar, congelamento de bens, embargo de armas).
“A realidade política no Afeganistão mudou nos últimos cinco anos, e o regime de sanções deve ter isso em conta”, declarou o representante permanente da Índia junto da ONU, Harish Parvathaneni. O diplomata indiano não especificou como, mas a fonte da ONU ouvida pela AFP salientou que o diálogo com os talibãs “está na ordem do dia”.
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