Setembro costuma trazer uma mudança de rotina, mas também uma mudança no orçamento de muitas famílias. Depois das férias chegam as listas de material escolar, a roupa, os transportes, as refeições e as atividades extracurriculares.
A inflação pode ter deixado de ocupar as primeiras páginas dos jornais com a mesma frequência, mas há uma distinção importante: uma inflação mais baixa não significa que os preços tenham voltado a ser os mesmos de há alguns anos. Significa apenas que continuam a subir a um ritmo mais lento.
É preciso perceber o que está por trás destes movimentos e, sobretudo, qual é o seu impacto. É aqui que a necessidade de aumentarmos o nosso nível de literacia financeira ganha importância, porque pode influenciar a forma como gerimos o orçamento familiar.
Os dados do INE ajudam a perceber a dimensão do desafio. No último Inquérito às Despesas das Famílias, os agregados com crianças dependentes apresentavam uma despesa anual média superior em 9.731 euros à dos agregados sem crianças. Quando grande parte do orçamento já está comprometida com habitação, alimentação e transportes, concentrar novas despesas pode exigir um esforço ainda maior por parte das famílias.
© Henrique Tomé
É aqui que a literacia financeira ganha importância. Não apenas como conhecimento sobre dinheiro, mas como capacidade para tomar melhores decisões quando esse dinheiro é limitado. Nos últimos anos, o interesse das famílias portuguesas tem aumentado. Ainda assim, apenas 48% atingiram o objetivo considerado básico no indicador de conhecimentos financeiros da OCDE.
O regresso às aulas é um bom exemplo. A primeira decisão financeira não deveria ser procurar a promoção mais interessante, mas perceber o que é realmente necessário. O material do ano passado ainda pode ser utilizado? É mesmo preciso comprar tudo de uma vez? Há despesas que podem esperar?
Parece uma questão simples, mas há aqui um princípio que também é fundamental nos mercados financeiros: preço e valor não são a mesma coisa.
Uma mochila mais barata não é necessariamente uma melhor compra se tiver de ser substituída todos os anos. Da mesma forma, uma promoção de 30% não representa uma poupança se o produto nunca tivesse sido comprado sem desconto.
Esta forma de pensar é, em si mesma, uma parte importante da literacia financeira: não olhar apenas para o preço, mas perceber o valor e a necessidade por trás de cada decisão.
Mas existe uma segunda dimensão, talvez ainda mais importante: o tempo.
Com as despesas familiares acontece o mesmo. O regresso às aulas não é uma surpresa. Acontece todos os anos. Sabemos que setembro vai coincidir com um período de maiores gastos e, por isso, é possível começar a preparar essa despesa com meses de antecedência.
Desta forma, uma família pode distribuir esse esforço ao longo do ano. Não significa necessariamente gastar menos. Significa evitar que uma despesa previsível se transforme num problema financeiro.
E quando o horizonte deixa de ser setembro e passa a ser cinco, dez ou quinze anos, a lógica pode ir mais longe. Uma parte do rendimento que não seja necessária no curto prazo pode ser canalizada para investimento, permitindo que o tempo deixe de ser apenas um prazo a cumprir e passe também a ser um aliado na construção de património.
No fundo, é esta a parte da literacia financeira que considero mais importante, pois não se resume apenas a saber o que são ações, obrigações, inflação ou taxas de juro. É também saber tomar decisões financeiras com antecedência, distinguir entre necessidades de curto e longo prazo e perceber as consequências dessas decisões.
O regresso às aulas é um exemplo do quão importante é gerir dinheiro não é apenas reagir às despesas quando elas aparecem. É olhar para a frente, antecipar e planear.
Setembro chega todos os anos. A melhor altura para começar a prepará-lo não é quando começam as aulas, mas muito antes.”
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