A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, disse em comunicado que as declarações do Japão, que considerou “absolutamente inaceitável” a visita de Putin às Curilas, no centro de uma disputa territorial de décadas entre os dois países, representam uma atitude “de revisionismo” que Moscovo rejeita.
Referindo-se a uma “política antirrussa que roça a hostilidade”, Maria Zakharova argumentou que as Curilas “foram transferidas para a Rússia no final da Segunda Guerra Mundial, em conformidade com os acordos com as potências aliadas e a Carta da ONU”.
A soberania e a jurisdição da Rússia sobre estas ilhas “são incontestáveis”, insistiu, criticando os líderes japoneses por “ditarem arrogantemente a Moscovo quais as regiões do seu próprio país que o seu líder supremo pode ou não visitar”.
A porta-voz do ministério russo acrescentou que, depois de ter assinado a rendição incondicional em setembro de 1945, o Japão está “novamente obcecado com a retórica revisionista destinada a encobrir a sua agressão na Ásia e a fazer exigências absurdas à Rússia”.
Maria Zakharova criticou ainda o Japão pelo apoio à Ucrânia e por impor sanções contra Moscovo, seguindo as potências ocidentais, após o início da invasão russa do país vizinho, em fevereiro de 2022.
O conselheiro do Kremlin e antigo ministro da Educação Vladimir Medinsky declarou, pelo seu lado, o “direito indiscutível” da Rússia ao arquipélago.
“As ilhas Curilas sempre foram, são e sempre serão nossas”, escreveu nas redes sociais Medinsky, que tem vindo a rever manuais de história russos numa perspetiva nacionalista.
O relato de Medinsky começa com a descoberta das ilhas pelos exploradores ocidentais em 1639 e termina com a sua recaptura na Segunda Guerra Mundial.
No entanto, omite o envolvimento e as reivindicações japonesas, bem como qualquer menção à população nativa do arquipélago.
Esta é a primeira visita de Putin às Curilas desde que assumiu o poder em 2000, gerando um conflito diplomático com Tóquio.
A viagem coincidiu com exercícios da Marinha Russa no Pacífico, onde aproveitou a oportunidade para criticar a crescente presença da NATO na região.
Segundo o Kremlin, Putin reuniu-se com os habitantes da ilha de Iturup (com uma população de cerca de 7.000 habitantes), a maior das quatro Curilas, as quais o Japão chama Território do Norte.
Putin não fez declarações políticas, limitando-se a visitar uma fábrica de processamento de peixe, onde experimentou caviar local, um hospital e uma escola, de acordo com imagens transmitidas pela televisão estatal.
O líder do Kremlin disse que os russos carregam “o gene da vitória” no sangue, pedindo que se lembrassem daqueles que morreram na operação realizada nas Curilas em setembro de 1945, a última grande batalha do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial.
O Governo japonês condenou prontamente a visita de Putin a Iturup (chamada Etorofu pelo Japão), chamando o embaixador russo em Tóquio, Nikolai Nozdiev, à sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, para a transmissão imediata de um protesto à presidência.
O chefe da diplomacia de Tóquio, Toshimitsu Motegi, considerou a visita “extremamente lamentável” e reafirmou que as ilhas de Kunashiri, Etorofu, Shikotan e Habomai “constituem parte integrante do território japonês” e, por isso, esta viagem “é incompatível” com a posição de Tóquio sobre o arquipélago.
Horas antes, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, tinha classificado a viagem de Putin a Iturup como “absolutamente inaceitável”.
Desde 1945 que Tóquio invoca um tratado de fronteiras em 1855 entre a Rússia czarista e o Japão para reivindicar a posse do arquipélago,
A Rússia, por sua vez, baseia-se na Conferência de Ialta, de fevereiro de 1945, durante a qual o antigo líder soviético Josef Estaline terá obtido do antigo Presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt a promessa de recuperar as Curilas em troca da entrada de Moscovo na guerra contra o Japão.
Esta disputa impede os dois países de concluir um tratado de paz formal e resolver a questão.
Nas Curilas vivem cerca de 20.000 cidadãos russos num clima rigoroso, mas rico em depósitos de ouro e prata, bem como abundantes zonas de pesca, e que adquiriu importância estratégica durante a Guerra Fria.

Visita de Putin às Curilas leva Japão a convocar embaixador russo
O Japão convocou hoje o embaixador russo em Tóquio, Nikolai Nozdiev, para protestar contra a primeira visita do presidente russo, Vladimir Putin, às ilhas Curilas, administradas por Moscovo, mas reivindicadas pelos japoneses.
Lusa | 14:07 – 13/08/2026



