A reorganização, anunciada na sequência da polémica em torno do Jens Spahn, levou Thorsten Frei a substituir Spahn e a assumir a liderança da bancada parlamentar da CDU (União Democrata Cristã) e União Social Crista (CSU), Nina Warken para chefiar o gabinete de Merz, Carsten Linnemann a tornar-se ministro da Saúde, e Steffen Bilger a ficar com a pasta dos Transportes, desencadeando críticas internas à forma como Merz conduziu o processo.
Para Frank Decker, professor de Ciência Política da Universidade de Bona, as consequências políticas da remodelação podem mostrar-se mais graves para o chanceler do que o impacto do atentado de sábado passado no Christopher Street Day (CSD), em Berlim.
“As mudanças de pessoal mal geridas por Merz no Governo e no partido provocaram um grande descontentamento dentro da CDU. Isso poderá até tornar-se perigoso para ele e representa, em qualquer caso, um problema maior para o Governo do que os atentados”, disse à Lusa.
Marc Debus, professor da Universidade de Mannheim, considerou igualmente que a remodelação colocou em causa a autoridade política de Merz.
“A remodelação algo atribulada do Governo e a forma como foi conduzida colocam em causa a capacidade de liderança do chanceler, mesmo dentro do próprio partido, e relegam para segundo plano os sucessos alcançados recentemente com os pacotes de reformas”, sustentou.
A nomeação de Bilger constitui o mais recente desenvolvimento na remodelação da ala conservadora do Governo.
A sucessão de alterações em cargos de direção foi desencadeada pela demissão de Jens Spahn, líder do grupo parlamentar da CDU/CSU no Bundestag, que abandonou o cargo na sequência da polémica gerada pela decisão de recorrer à gestação de substituição nos Estados Unidos para ter um filho.
A opção suscitou críticas por contornar a legislação alemã, que proíbe esta prática, e por ser considerada incompatível com os princípios defendidos pelo próprio partido.
Para Debus, a evolução da contestação interna será determinante nas próximas semanas.
“A questão será saber quão rapidamente se calam as vozes críticas dentro da CDU. Se essas críticas persistirem e os resultados das eleições de setembro forem negativos, a responsabilidade poderá ser atribuída diretamente a Friedrich Merz, fragilizando ainda mais a posição como líder da CDU e chanceler”, advertiu.
Apesar de o atentado ter recolocado a imigração e a segurança no centro do debate político, ambos os especialistas consideraram que a economia vai continuar a ser o principal critério de avaliação do Governo.
“Os temas decisivos serão a situação económica e as reformas sociais iniciadas pelo Governo. Em nenhum destes domínios os partidos da coligação vão conseguir ganhar apoio”, afirmou Decker.
Na sua perspetiva, a recuperação económica esperada pelo executivo não se concretizou, pelo que CDU/CSU e SPD (Partido Social Democrata) deverão sofrer perdas eleitorais.
Debus concordou que “a fraca situação económica, associada aos elevados preços dos combustíveis”, vai continuar entre as principais preocupações dos alemães, apesar de o atentado ter devolvido a imigração e a integração ao centro da agenda política.
As eleições regionais na Saxónia-Anhalt e em Berlim, marcadas para setembro, serão o primeiro grande teste eleitoral de Merz desde a remodelação.
Debus salientou que a AfD (Alternativa para a Alemanha, populista de extrema-direita) apresenta atualmente resultados muito fortes nas sondagens e, na Saxónia-Anhalt, poderá mesmo conquistar uma maioria absoluta dos mandatos, cenário que aumentaria a pressão sobre a liderança do chanceler e reacenderia o debate interno na CDU sobre a estratégia a seguir perante a extrema-direita.
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