“Deixem-me ser claro: a tudo o que vier da União Europeia (UE) que contrarie os interesses dos franceses, de acordo com o programa em que votaram, nós desobedeceremos”, declarou Mélenchon durante um debate sobre propostas económicas com outros seis candidatos que já se apresentaram, realizado no âmbito do encontro anual da principal federação patronal de França, a Medef, no ‘court’ central de Roland Garros.
O líder do partido França Insubmissa (LFI, na sigla em francês, esquerda radical) destacou-se de entre os restantes candidatos à presidência de França pelas suas críticas a Bruxelas — mais incisivas do que as da própria Marine Le Pen, durante muitos anos o símbolo do extremismo de extrema-direita antieuropeu — e defendeu “a modificação” dos atuais tratados europeus.
“Se não o fizermos, morreremos política, social e industrialmente. Não estamos em condições de resistir [no estado atual das coisas]”, advertiu.
Mélenchon, que a 18 de abril de 2027 disputará a sua quarta eleição presidencial, está, de acordo com diversas sondagens, em condições de se qualificar para a segunda volta, que se realiza a 02 de maio, num confronto com Le Pen que preocupa o mundo empresarial devido às posições historicamente eurocéticas de ambos.
A política de extrema-direita Marine Le Pen, favorita nas sondagens para suceder a Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu em 2027, defendeu hoje o fim da “loucura regulatória” no país, na ronda inicial de breves intervenções dos candidatos neste primeiro debate eleitoral.
“O nosso país tem uma identidade económica assente nas empresas, na nação e no Estado – em empresas que sofreram enormemente. Estes impostos excecionais não devem tornar-se permanentes; devemos travar esta loucura regulatória”, sustentou Le Pen, depois de apelar para “a união” entre trabalhadores e empregadores para impulsionar “a recuperação” de França com base no “consenso geral quanto à gravidade da situação”.
Por sua vez, Mélenchon defendeu “o regresso do Estado e, com ele, do planeamento ecológico para dar visibilidade e consolidar a economia circular”, uma vez que “as alterações climáticas vão destabilizar todas as cadeias de produção, o setor financeiro e toda a esfera da atividade humana”.
“Estamos ameaçados por uma crise financeira”, declarou, que pode surgir “da bolha digital ou da dívida dos Estados, particularmente dos Estados Unidos”, e avisou os líderes empresariais de que “se não aumentarem os salários, França entrará em recessão”.
O líder da LFI expressou também a convicção de que, caso seja eleito Presidente em 2027, encontrará aliados entre os líderes de outros países europeus – “particularmente, os países latinos” – para avançar com a sua proposta de perdão da dívida pública detida pelo Banco Central Europeu (BCE), que, no caso de França, ascende a cerca de 600 mil milhões de euros, aproximadamente um terço do total.
Segundo o político veterano de 75 anos, um dos efeitos benéficos do perdão da dívida seria a redução das taxas de juro, que tornaria o crédito mais acessível, e comparou a medida à operação de compra de obrigações anunciada na semana passada pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent.
O segundo classificado nas sondagens – bastante atrás da candidata da extrema-direita, Marine Le Pen -, Jean-Luc Mélenchon criticou também o Movimento das Empresas Francesas (Medef), que defende que a redução de impostos e das contribuições para a Segurança Social das empresas deve ser uma das principais prioridades do próximo Presidente francês, a par da redução da dívida nacional.
Num tom ligeiramente desafiante, afirmou que, se toda a ajuda pública às empresas fosse eliminada, “todo o défice do Estado desapareceria” e advertiu que, se chegar ao Palácio do Eliseu, “não haverá ajudas sem contrapartidas”.
O candidato de direita Édouard Philippe, que foi primeiro-ministro durante os primeiros três anos da presidência de Emmanuel Macron (2017-2020), criticou veementemente a proposta de Mélenchon, classificando-a como “extremamente perigosa”, porque implicaria dizer a outros países europeus “que França não respeita as regras que acordou” e levaria a que o país fosse “banido do setor bancário”.
Se vencer as eleições, Philippe anunciou que submeterá à aprovação do parlamento uma reforma que exigirá o respeito pela regra do equilíbrio orçamental – uma ideia com que Marine Le Pen concordou, sugerindo mesmo que deveria ser incluída na Constituição.
“Quanto à dívida, pagá-la-emos”, insistiu também.
Além de culpar os Governos de Macron por terem “agravado a situação”, com mais mil milhões de euros em dívida, Le Pen alertou para os efeitos desses défices e para o “efeito bola de neve que privará França da sua soberania” e que “será dramático”.
A sua forma de lidar com este problema seria, antes de mais, com um plano de poupança de 125 mil milhões de euros, que apresentaria antes de tornar pública a sua proposta orçamental para 2027, em setembro.
Afirmou que há margem para cortar nas despesas em organismos e entidades públicas, argumentando que “a imigração é muito onerosa para o sistema de proteção social” do país, e na contribuição líquida para a UE, que aumentou nos últimos anos para 5 mil milhões de euros – sem qualquer compensação para França, na sua opinião.
O candidato social-democrata Raphaël Glucksmann rejeitou a iniciativa de Le Pen de cortar nas despesas com os imigrantes, sublinhando que a economia francesa precisa deles, e também criticou a sua proposta de reduzir as contribuições para a UE, sustentando que a Europa é o mercado natural para as empresas francesas e o que as protegerá da concorrência desleal da China e dos Estados Unidos.
Glucksmann salientou que a dívida de França teve origem na “desindustrialização” do país durante as décadas de 1980 e 1990, que prometeu reverter.
O outro antigo primeiro-ministro de Macron, Gabriel Attal, afirmou que, para equilibrar as contas públicas, “é preciso mudar profundamente o sistema social” francês, que representa a maior despesa.
Para tal, propôs, como exemplo, um novo sistema de pensões “universal”, em que os direitos à reforma se iriam acumulando em função do período de contribuição e seriam acompanhados de “um verdadeiro pilar de capitalização”.
Esta iniciativa promovida pela Medef (Confederação Empresarial Francesa) tratou-se do primeiro grande debate televisivo entre os potenciais sucessores de Macron.
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