Para Sivaranjani Muthunathan, 46 anos, era a peregrinação de uma vida.
Chegou aos Himalaias no domingo com um grupo de 56 indianos do estado de Uttar Pradesh (norte).
Na manhã de quarta-feira, a última etapa da viagem transformou-se num pesadelo.
“Tudo tinha corrido bem até ali”, contou à agência de notícias France-Presse (AFP), após ter sido levada para um acampamento improvisado em Nuwakot.
“Éramos 21 num autocarro, entre os outros dois veículos que transportavam o nosso grupo. De repente, fomos apanhados por uma espécie de nevoeiro, de fumo, que envolveu tudo”, prosseguiu.
A sequência dos acontecimentos surge num vídeo que gravou com o telemóvel: imagens assustadoras da vaga de água enlameada que arrastou o comboio de veículos.
A sobrevivente relatou que o motorista fugiu, abandonando os passageiros.
“Conseguimos sair do autocarro, um a um pela porta”, descreveu, antes de subirem pelas encostas circundantes para se abrigarem.
“Não tínhamos outra escolha”, confirmou outro peregrino, Vijayabhuvaneshwari (nome único), 53 anos.
“Todos os veículos à nossa frente e atrás de nós desapareceram”, prosseguiu, “pedras e rochedos caíram pelas encostas”.
De acordo com o balanço provisório, quase 500 pessoas morreram quando uma parede de água e lama, provocada pelo colapso de parte de um glaciar, se enfiou pelos vales desta região dos Himalaias, arrastando tudo à passagem.
Mais de 1.400 pessoas, dadas como desaparecidas, continuam a ser procuradas no Nepal e na China.
Para Laloma (nome único), uma nepalesa milagrosamente salva das águas enlameadas que devastaram a localidade de Syabrubesi, o destino da maioria do grupo de peregrinos indianos a caminho do monte Kailash e do lago Mansarovar parece certo.
“Foram todos arrastados”, testemunhou a mãe de 27 anos.
O pico de 6.638 metros em forma de pirâmide é sagrado para os hindus e para os budistas tibetanos. Os primeiros consideram o monte Kailash a morada das divindades Shiva e Parvati, enquanto os segundos o veem como o centro do universo.
Como a ascensão do monte é proibida, os crentes contornam-no num percurso de 52 quilómetros que dura três dias e têm por hábito banhar-se nas águas geladas do lago.
O líder espiritual hindu Sadhguru dirigiu este ano várias destas caminhadas espirituais, que a sua fundação Isha descreve como “marchas sagradas”.
Numa mensagem publicada na quinta-feira nas redes sociais, Sadhguru disse que um grupo de 77 fiéis se encontrava também na quarta-feira no posto de fronteira sino-nepalês mais próximo quando a enxurrada atingiu a zona.
“É um evento terrível e extraordinário”, afirmou no vídeo, visivelmente emocionado.
“Todos nós, voluntários e encarregados, estamos profundamente angustiados”, acrescentou.
A partir da Tailândia e da Malásia, familiares aguardam notícias.
Logadarrsiny Raman, 26 anos, relatou que quatro membros da família faziam parte de um grupo presente no local.
Os pais, o tio e a tia ansiavam há meses pela peregrinação.
“Estavam determinados a fazer esta jornada juntos, em família”, contou.
A jovem trocou uma última mensagem com eles na quarta-feira às 08:40 locais em Kuala Lumpur, alvorada no Nepal.
Desde então, o silêncio é total.
“Estou muito ansiosa. Ainda tenho esperança de saber que estão sãos e salvos”, desabafou.
Leia Também: Nepal: Irmãos portugueses localizados. 3 cidadãos nacionais desaparecidos



