As memórias são relatadas à Lusa por três militantes que lá estiveram nesse ano. João Camilo tinha 29 anos, Luísa Ramos 28 e Daniel Branco 31 quando, em setembro de 1976, entraram na antiga FIL para a primeira Festa do Avante!, à qual, desde então, regressam todos os anos.
O PCP tinha saído há pouco de décadas de clandestinidade e a primeira festa do Avante!, nome do jornal oficial do PCP, surgia como uma demonstração pública da capacidade de mobilização e organização do partido, que, em pleno centro de Lisboa, juntou milhares de militantes, simpatizantes e visitantes para três dias de música, debates e convívio.
A festa, realizada entre 24 e 26 de setembro de 1976, decorreu num país ainda marcado pela tensão política do período revolucionário, apesar de já ter passado o Verão Quente, de a Constituição estar em vigor e de se terem realizado as primeiras eleições legislativas pós-25 de Abril.
Essa tensão é uma das principais memórias que os três militantes do PCP trazem para a conversa com a Lusa sobre a primeira edição do certame comunista. Dias antes da abertura – os três diferem na data concreta -, uma explosão atingiu uma instalação elétrica que servia o recinto, deixando a FIL sem energia.
João Camilo, médico e responsável clínico de todas as edições da festa, que este ano assinala o 50º aniversário, situa o atentado na véspera do início do evento e estava no local quando a bomba explodiu. “Eu lembro-me perfeitamente, porque a FIL tremeu”, conta.
Naquele momento, recorda, havia centenas de militantes e amigos a construir a festa e, ao contrário do que se poderia imaginar, “ninguém fugiu, ninguém se alarmou”. “As pessoas que podiam continuar a fazer alguma coisa, continuaram a fazer”, relata.
O apagão causado pela explosão terá durado cerca de meia hora, não se prolongando porque militantes do PCP que eram eletricistas e que trabalhavam na EDP repararam rapidamente os estragos provocados.
As causas, até hoje, não são conhecidas, mas João Camilo supõe que tenha sido um ato integrado na “ampla campanha de terrorismo da extrema-direita”, que tinha como protagonistas, à época, movimentos como o Exército de Libertação de Portugal (ELP) e o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP).
Luísa Ramos nunca falhou uma Festa do Avante!, estava grávida de oito meses na primeira edição e por isso não participou na construção da festa. No entanto, questionada pela Lusa sobre a sua primeira memória do evento, recorda o mesmo episódio que João Camilo, embora o situe dois dias antes da inauguração.
“Dois dias antes da festa tinha havido uma bomba, tinham colocado uma bomba na parte elétrica. […] Eu fiquei muito preocupada, porque não sabia [o que se tinha passado]. Deveria haver militantes a trabalhar no recinto e fiquei preocupada se teria sido alguém ferido”, recorda.
A militante do PCP tem memória de o incidente ter sido “muito noticiado”, mas destaca sobretudo, à semelhança de João Camilo, a reação dos seus camaradas: “A forma como os militantes do PCP, que estavam na construção do espaço, reagiram, e a festa abriu no dia e na hora prevista, é, de facto, reveladora da grande disposição de contribuir para que as coisas se façam”.
“Não há bomba que nos faça desistir de continuar a trabalhar para que as coisas aconteçam da melhor maneira”, resume.
O militante Daniel Branco, que viria a ser membro do Comité Central, deputado, e presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira entre 1980 e 1997, também não estava no local, mas esteve no recinto ainda nesse dia. Diz que a explosão ocorreu três dias antes da festa e que provocou “um grande apagão”, salientando o “grande trabalho de recuperação” feito por militantes “para pôr aquilo outra vez a funcionar”.
O comunista considera que a resposta rápida teve uma dimensão política: “Demonstrar que não seria por aquela via que conseguiam demolir” o partido. “Assim que se consegue recuperar outra vez eletricidade, dá-se uma imagem de capacidade e de poder”, considera.
Se a bomba marcou os dias anteriores à abertura, Daniel Branco guarda como principal imagem o comício de encerramento, com a intervenção do então secretário-geral Álvaro Cunhal. O pavilhão preparado para a iniciativa rapidamente se revelou pequeno, obrigando a organização a montar o palco no exterior, perante um “mar de gente” que se estendeu desde o parque de estacionamento da FIL até à zona da avenida marginal.
Daniel Branco admite recordar menos as palavras do secretário-geral do que o efeito de “força e capacidade” daquele comício. Luísa Ramos destaca que, perante a grande multidão que foi à festa nesse dia 26 de setembro de 1976, Cunhal fez avisos sobre as ameaças à democracia recém-conquistada e apresentou propostas para que a “reação não passasse”.
João Camilo fala de uma intervenção “magnífica” e recorda sobretudo que o líder comunista explicou que a ideia de uma festa popular como o Avante! vinha ainda da clandestinidade, quando dirigentes e funcionários do partido alimentavam o desejo de, em liberdade, poderem mostrar publicamente “o que é que queriam”.
Cinquenta anos e tantas histórias depois, os três estarão na edição número 50 da Festa, que decorre entre 4 e 6 de setembro, na Quinta da Atalaia, no Seixal.
Acreditam que haverá festa para além deles, mas uns são mais prudentes do que outros. É o caso de Daniel, que defende “haver espaço para as ideias do PCP”, mas salienta que isso é “diferente de dizer que há espaço para o PCP” no futuro.
João Camilo não embarca na mesma dúvida, citando Fausto Bordalo Dias para sustentar a sua visão: “Atrás dos tempos vêm tempos. E outros tempos hão-de vir”.
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