“Ele [Fidel Castro] atacou todos os princípios, os valores que definiam Cuba e definiu um novo modelo de ser humano que se mostrou inviável. Portanto, o legado é negativo”, disse o professor da Universidade Europeia à agência Lusa, por ocasião do centenário do nascimento do antigo presidente cubano, também conhecido como ‘el comandante’.
“Deixou um país sem instituições credíveis, uma nação com concentração total do poder, sem instituições livres, deixou uma economia completamente destruída e dependente, na altura, da Venezuela”, acrescentou o académico radicado em Portugal.
Ainda assim, para a esquerda internacional “sobretudo anti-norte-americana”, deixou um legado político de independência face aos Estados Unidos (EUA), mas que para o povo cubano resultou em “praticamente nada”, sublinhou o investigador.
“Aquela visão romântica do David contra Golias, da pequena ilha das Caraíbas que enfrenta uma potência estrangeira. Isso é o que faz a esquerda internacional gostar do legado de Fidel”, frisou.
Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu a 13 de agosto de 1926, em Birán, uma pequena localidade do município cubano de Mayari, no seio de uma família de origens galegas.
Após um longo e conturbado período como opositor do regime de Fulgêncio Batista (um então aliado dos EUA), o guerrilheiro Fidel Castro, que frequentou Direito na Universidade de Havana, e o seu companheiro de luta Che Guevara chegavam a 01 de janeiro de 1959 a Havana e a Revolução Cubana fazia a sua entrada na História.
Fidel Castro assumiu o poder na ilha e tornou-se numa das figuras mais carismáticas, mas também das mais controversas, da História política do século XX.
Após 47 anos no poder, a 31 de julho de 2006, Fidel Castro decidiu afastar-se devido a problemas de saúde e delegou a liderança do regime cubano ao irmão Raúl, mais novo cinco anos.
Entre os aspetos positivos que por vezes são elencados por apoiantes do regime castrista estão as conquistas sociais nas áreas da saúde e da educação, mas Rodolfo Bendoyro contesta essa versão, argumentando que essas áreas estavam “em completa decadência” já na altura da morte de Fidel em novembro de 2016.
Quase dez anos depois da morte de Fidel, e do apelido Castro já não figurar na liderança da ilha caribenha, o regime cubano está a enfrentar atualmente tempos desafiantes.
Para Rodolfo Bendoyro, e perante as novas sanções norte-americanas e o embargo de combustível à ilha pelos Estados Unidos, a Revolução Cubana atravessa o momento da sua história em que mais está em risco de colapsar.
“É o momento mais frágil da Revolução Cubana, mas não só por causa do bloqueio de petróleo do [Presidente norte-americano] Donald Trump, mas porque internamente está sem nenhuma credibilidade”, argumentou.
A Venezuela era o principal exportador de petróleo para a ilha, mas tudo mudou após a captura pelas Forças Armadas norte-americanas do aliado próximo de Havana, o ex-presidente Nicolás Maduro, no início do ano.
Desde então a ilha tem atravessado uma escassez energética que tem afetado toda a população e que levou a ONU a condenar estas medidas norte-americanas da administração Trump.
Para levantar o bloqueio, o Departamento de Estado norte-americano exigiu a Havana mudanças políticas drásticas, como liberalizar a sua economia.
Havana respondeu no mês passado com a abertura de vários setores da economia à iniciativa privada, pouco depois de o parlamento aprovar um pacote de 176 medidas destinado a promover uma maior liberalização da atividade económica.
À Lusa, Rodolfo Bendoyro recordou, porém, que esta postura já foi adotada no passado por Havana durante as presidências de Fidel, do irmão Raúl Castro e do atual chefe de Estado, Miguel Díaz-Canel, e que acaba por ser revertida logo que se registe alguma recuperação económica.
“Sempre que a economia recupera e o Estado consiga ter receitas suficientes, eles fecham-se novamente para conseguir ter um controlo total sobre a economia e sobre as pessoas, portanto, não me parece credível”, afirmou.
Para o analista existe outro aspeto que poderá pesar num possível fim do regime em Cuba: o apoio popular.
“Na década de 1980, ou mesmo quando saí de Cuba há 17 anos, ainda havia uma base de apoio popular muito forte ao regime. Isso não existe atualmente. O regime mantém-se apenas na base da repressão”, defendeu.
“Eventualmente terá de cair”, acrescentou.
Ainda à Lusa, Rodolfo Bendroyo contou que os cubanos com quem comunica, apesar das dificuldades que atravessam fruto do bloqueio norte-americano, não culpam Washington pela situação em que vivem.
“Estão dispostos a todo o sacrifício para fazer cair o regime”, disse, admitindo, no entanto, que a situação está a arrastar-se no tempo e “agora já está a ser demais”.
“Tem-se prolongado por muito tempo. Há pessoas que tinham esperança de que esta pressão extrema poderia conduzir a uma intervenção norte-americana, a queda do regime, ou uma ação similar à que aconteceu em Venezuela. Era o que as pessoas secretamente queriam, um fim rápido do regime. Só que o regime conseguiu adaptar-se e com a repressão conseguiu manter-se no poder”, referiu ainda o académico.
Em Cuba, para assinalar o centenário do nascimento de Fidel Castro, o país organizou um colóquio que recebeu representantes comunistas de todo o mundo, incluindo o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo.
O “I Colóquio Internacional Fidel: Legado e Futuro”, realizado no Palácio das Convenções, em Havana, começou na segunda-feira e termina hoje.
Os presidentes da China e da Rússia, Xi Jinping e Vladimir Putin, respetivamente, enviaram cartas a destacar a relevância do antigo líder cubano.
Putin descreveu Fidel Castro como um “símbolo da liberdade, da justiça e do patriotismo, tanto para os próprios cubanos como para milhões de pessoas em diversos países do mundo”.
O membro do Comité Central do Partido Comunista Chinês e chefe do Departamento Internacional da força política, Liu Haixing, leu, na sessão de abertura do colóquio, a carta enviada por Xi, na qual destacou o papel de Castro “na consolidação e no impulso das relações da ilha com a China”, que “se tornaram uma referência na cooperação entre países socialistas”.
A Rússia e a China têm sido aliados tradicionais do Governo cubano.
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