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Guerras no Congo e menor cooperação em saúde favorecem surto do ebola

Lucas Pordeus Leon - Reporter da Agencia Brasil
Ultima atualização: 2026/06/16 at 7:02 AM
Por Lucas Pordeus Leon - Reporter da Agencia Brasil
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10 leitura mínima
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Guerras no Congo e menor cooperação em saúde favorecem surto do ebola
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As guerras que dilaceram o Leste da República Democrática do Congo (RDC) há décadas e a redução da cooperação internacional na área da saúde favoreceram a proliferação do atual surto de ebola na África. A doença volta a assombrar o continente em meio à escassez de profissionais de saúde na região.

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Província de Ituri é o epicentro do surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) – Foto: Reuters/Gradel Muyisa Mumbere/Arquivo/Proibida reproduçãoMenor cooperação internacionalProfissional de saúde mede a temperatura de um rebelde do M23 na entrada do Laboratório Rodolphe Merieux, do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB), onde são examinadas amostras de casos suspeitos de ebola, como parte da resposta à epidemia em Goma, província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo – Foto: Reuters/Arlette Bashizi/Arquivo/Proibida reproduçãoPotências aumentam gastos com defesaEscassez de profissionaisCasos e mortes na RDC e Uganda

O epicentro do surto ocorre na província de Ituri, no Nordeste da RDC, que responde por 93% do total de casos confirmados (676) no país, seguida pelas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, que são os departamentos mais afetados pelas guerras congolesas.

A quase 2 mil quilômetros de distância da capital do país, Kinshasa, essa é uma região disputada por cerca de 100 grupos paramilitares que lutam pelo controle das atividades minerais da RDC. Estima-se que milhões de pessoas sejam refugiadas das guerras locais.

“O surto está se desenrolando em um contexto humanitário complexo e afetado por conflitos, caracterizado por populações altamente móveis e frequentemente deslocadas”, diz informe da Organização Mundial da Saúde (OMS), que acrescenta que o surto continua a evoluir rapidamente.
 

Red Cross workers disinfect after handling the body of a person who died of Ebola, as aid agencies intensify efforts to contain a new Ebola outbreak involving the Bundibugyo strain, at the Centre Medical Evangelique (CME) in Hoho commune of Bunia, Ituri province, Democratic Republic of Congo, May 21, 2026. REUTERS/Gradel Muyisa Mumbere     TPX IMAGES OF THE DAY

Província de Ituri é o epicentro do surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) – Foto: Reuters/Gradel Muyisa Mumbere/Arquivo/Proibida reprodução

O professor de história da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Nuno Carlos de Fragoso Vidal explica à Agência Brasil que o atual surto surgiu em uma região marginalizada da RDC que está sob influência de Ruanda, que financia o principal grupo paramilitar naquela região, o M23.

“É um conflito latente que já causou várias dezenas de milhares de mortos ao longo dos anos. É uma terra de ninguém, uma zona de grupos armados e de influência de Ruanda, que explora recursos naturais a seu favor. Esses grupos exploram, por exemplo, o coltan [mineral crítico] e depois ele é exportado via Ruanda”, afirma o especialista.

Natural de Angola, o professor acrescenta que as equipes de saúde têm dificuldade em acessar as áreas controladas por grupos paramilitares hostis. Ele lembra que o suposto acordo de paz costurado pelo presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, com os governos de Ruanda e da RDC, em junho de 2025, não tem saído do papel.  

“Esses acordos não saem do papel porque emergiu em Ruanda um presidente [Paul Kagame] com pretensões de controlar uma vasta região e recursos que não pertencem ao país. E ele é muito protegido pelo Ocidente, pelos EUA, mas, sobretudo, pela Inglaterra. Existe, de fato, uma apropriação indevida de recursos daquela zona do Congo”, comenta.

Além da República Democrática do Congo, o surto afeta também Uganda, um país vizinho. “Em Uganda, o surto permanece epidemiologicamente ligado à transmissão originada na República Democrática do Congo”, diz a OMS.

Menor cooperação internacional

Além das guerras do Leste da RDC, especialistas acrescentam que a redução da cooperação internacional na área da saúde, nos últimos anos, também favorece o surto de ebola e citam, como agravante, a saída dos Estados Unidos da OMS. Washington figurava como maior doador da organização.

Além disso, a ajuda internacional dos EUA prevista no orçamento para a República Democrática do Congo caiu cerca de 90%, saindo de US$ 1,41 bilhão em 2024, para US$ 0,14 bilhão, em 2026. Esse é um dos resultados da política de Donald Trump de reduzir a ajuda internacional estadunidense no mundo, em especial, a fornecida por meio da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID).

Apesar da redução no financiamento da saúde global, os EUA se apresentam como maior país doador para combate ao surto de ebola, com cerca de US$ 338 milhões em assistência humanitária à RDC, ao Sudão do Sul e a Uganda.
 

A health worker takes the temperature of an M23 rebel at the entrance to the Rodolphe Merieux Laboratory, National Biomedical Research Institute (INRB), where samples from suspected Ebola cases are examined, as part of the response to the epidemic in Goma, North Kivu province of the Democratic Republic of Congo, May 19, 2026. REUTERS/Arlette Bashizi

Profissional de saúde mede a temperatura de um rebelde do M23 na entrada do Laboratório Rodolphe Merieux, do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB), onde são examinadas amostras de casos suspeitos de ebola, como parte da resposta à epidemia em Goma, província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo – Foto: Reuters/Arlette Bashizi/Arquivo/Proibida reprodução

O presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rômulo Paes de Sousa, acrescenta à Agência Brasil que a postura dos EUA de esvaziar as organizações multilaterais, como a OMS, em favor de estruturas de cooperação bilaterais, traz incertezas para o combate ao novo surto.

“Além da redução do nível de repasse de recursos para área da saúde, há o desmonte das estruturas de governança da saúde global. Os repasses, que antes ocorriam através de estruturas conhecidas, agora ficaram ligados a negociações bilaterais contaminadas por interesses comerciais, sobretudo em relação a terras raras, que é da pauta de interesse econômico dos EUA”, explica o epidemiologista.

A coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Africanos (Nenaf) da ESPM, Natalia Fingermann, destacou que as mudanças nos canais de cooperação internacionais dificultam o monitoramento sobre a aplicação desses recursos.

“Era muito fácil os EUA levarem esses recursos via OMS, pois ficava completamente transparente essa transferência. Hoje a gente sabe que o CDC da África ainda não recebeu nenhuma transferência norte-americana desse montante anunciado”, explicou.

Na semana passada, a OMS informou que três laboratórios na RDC ficaram sem insumos para testes de detecção do vírus ebola.

Potências aumentam gastos com defesa

O aumento dos gastos em defesa de potências europeias é apontado como fator adicional que dificulta a resposta à emergência de saúde global representada pelo ebola na África, como destaca a professora de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Natalia Fingermann.

“Desde o ano passado, a União Europeia e alguns países importantes dentro da África, como o Reino Unido e França, optaram por reduzir os recursos de ajuda internacional para ampliar os gastos militares internos”, comenta Natalia Fingermann.

Em 2025, os países da Europa, pressionados pelos EUA, concordaram em elevar os gastos com defesa de 2% até 5% do Produto Interno Bruto (PIB). Com isso, houve um aumento de 20% no total gasto com defesa pelos países europeus, e pelo Canadá, se comparado com 2024, segundo o Relatório Anual da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Para combater o ebola, a União Europeia anunciou € 15 milhões em assistência humanitária adicional para o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC da África).
 

Motorcycle taxis carry passengers following a resurgence of Ebola involving the Bundibugyo strain, a rare variant of the virus with no approved vaccine currently available, along Ben Kiwanuka street in Kampala, Uganda May 21, 2026. REUTERS/Abubaker Lubowa

Escassez de profissionais

A União Africana e a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicaram um plano para conter a expansão do vírus, em que solicitam aportes financeiros de US$ 517 milhões para os próximos seis meses.

Em comunicado, o CDC África, órgão continental de combate a doenças, destacou que, entre os principais problemas para o controle do surto de ebola, está a escassez de profissionais, como epidemiologistas, clínicos e especialistas de laboratório.

Para o Conselho Consultivo e Técnico do CDC África, as prioridades são, entre outras, a ampliação da capacidade de testes diagnósticos rápidos da doença e a melhoria do “acesso humanitário e a coordenação civil-militar para garantir que as equipes de resposta possam chegar em segurança às comunidades afetadas”.

Para o professor de história da África da UFRJ Nuno Vidal, como ocorrem dentro do continente africano, os surtos de ebola não despertam o interesse que mereceriam.

“Do ponto de vista exclusivamente sanitário, o medo é que isto pudesse, eventualmente, sair para fora da África. Enquanto não sair da África, ou não se espalhar muito para além daquela região, não aciona todos os alarmes à nível internacional”, avalia.

Casos e mortes na RDC e Uganda

Dados da OMS registrados até o dia 10 de junho informam que foram confirmados 676 casos do vírus Ebola na República Democrática do Congo, com 136 mortes.

Em Uganda, até o dia 11 de junho, foram registrados 19 casos confirmados e dois óbitos. “Uganda não relatou nenhum novo caso nos últimos seis dias”, diz a OMS. Pelo menos 37 pessoas se recuperaram da doença nos dois países.

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