As audições estão a decorrer em França, no âmbito de um inquérito por tortura e crimes de guerra que visa Israel.
De acordo com fontes questionadas pela agência de notícias France-Presse (AFP), as condenações internacionais multiplicaram-se, desde maio, relativamente ao tratamento dado, no mar e, posteriormente, em terra, a 430 ativistas de várias nacionalidades, incluindo um português, Nuno Gomes, que foi expulso de Israel e chegou a Portugal a 02 de maio, onde denunciou ter sido torturado pelas autoridades israelitas.
Passado um mês, os investigadores começaram a contactar os cerca de 30 cidadãos franceses que integravam a flotilha, tendo já ouvido alguns deles, precisaram as mesmas fontes.
As autoridades militares e prisionais israelitas rejeitaram as acusações formuladas contra si, mas, em França, o Ministério Público Nacional Antiterrorista (PNAT) abriu um inquérito preliminar por tortura e crimes de guerra, na sequência de uma comunicação do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.
A Itália abriu uma investigação semelhante, enquanto a Austrália anunciou um inquérito independente.
Um dos participantes, Noé Tissot foi interrogado em pormenor, pelas autoridades francesas, sobre os três dias que passou sob custódia das forças israelitas, desde a interceção do seu veleiro em águas internacionais, a 18 de maio, até à expulsão para a Turquia, depois de uma passagem por uma prisão em Israel.
Tissot relatou nomeadamente agressões físicas a bordo do “navio-prisão” onde os membros da flotilha foram reunidos pelo exército israelita, coronhadas sofridas na prisão, bem como humilhações, designadamente após ter sido despido, segundo elementos a que a AFP teve acesso.
O cozinheiro, de 32 anos, integra igualmente o grupo de 13 participantes da flotilha que apresentaram hoje uma queixa ao Ministério Público Antiterrorista por “factos atentatórios da sua integridade física e psicológica, atos de violência sexual, privação de liberdade e sequestro de pessoas protegidas nos termos das Convenções de Genebra”, anunciaram os advogados à AFP.
“Perante a gravidade dos factos denunciados, esperamos uma investigação imparcial, séria e independente, que possa conduzir ao apuramento de responsabilidades e à punição dos responsáveis por estes atos, reconhecidos pelo direito interno e internacional como dos mais graves”, disse uma das advogadas do coletivo Julie Février.
“Esperamos também que esta queixa lance luz sobre aquilo que as palestinianas e os palestinianos vivem diariamente na mais completa impunidade”, acrescentou.
Também Nuno Gomes, envolvido na Flotilha Global Sumud para Gaza, denunciou, em maio numa entrevista à Lusa, ter sido torturado física e psicologicamente durante dois dias pelo exército israelita depois de a embarcação em que seguia ter sido intercetada por Israel.
O português, de 56 anos, adiantou então que o exército israelita “travou a campanha” marítima, de 58 embarcações e 181 ativistas que pretendiam romper o bloqueio naval israelita e a abrir um corredor humanitário permanente na Faixa de Gaza para levar ajuda humanitária, a 27 de abril e “sequestrou todos os envolvidos”.
“A intercessão por parte do exército israelita foi feita em águas internacionais, 50 milhas a sul da costa da Grécia. Foi muito violenta, tanto do ponto de vista psicológico como do ponto de vista físico. […] Apontaram-nos armas com ‘lasers’, armas carregadas com munições reais. Não pediram autorização para entrar dentro das embarcações. A partir daquele momento, ficamos com a certeza absoluta que estávamos a ser raptados”, relatou.
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