Num contexto de crise energética, a importância da gestão especializada da energia tem vindo a crescer e o acesso a dados e métricas em tempo real é cada vez mais prioritário para as empresas, mas há margem de progressão.
“As empresas continuam a tratar a energia como um custo fixo e não como uma variável que se gere e se mitiga ativamente, o que tem um preço. A maioria dos empresários com quem falamos nunca aferiu a potência contratada face à que efetivamente utiliza, nem validou se os conceitos da fatura estão bem aplicados. E os conceitos não param de aumentar: hoje já há toda uma nova camada de custos indexados ao mercado, como as perdas ou os custos de regulação imputáveis ao consumo, que a maioria das empresas não sabe validar se estão a ser corretamente repercutidos na sua fatura”, explicou Susana Pires, Head of Energy Management da Youdera, que ajuda as empresas europeias a reduzir o risco energético, ao Notícias ao Minuto.
Susana Pires até adiantou um exemplo: “já vimos o caso de um cliente com potência contratada de 2.650 quilowatts (kW), quando o máximo registado nos últimos 12 meses foi de apenas 1.100 kW, o que representa um desfasamento que gerava sobrecustos evitáveis há anos“.
“Isto acontece porque a potência contratada é definida, por regulamento, pelo valor máximo da potência tomada, registado em intervalos de 15 minutos, ao longo de uma janela móvel dos últimos 12 meses. Ou seja, é precisamente este tipo de dado granular, quarti-horário, que determina se uma empresa está a pagar por uma potência que já não corresponde à sua operação real. Sem esse exercício de validação, a decisão energética deixa de ser uma decisão e passa a ser uma aceitação passiva do que o comercializador propõe”, explicou a responsável.
Qual é o custo real da falta de informação?
O problema, segundo Susana Pires, está precisamente aqui: “Sem diagnóstico, não há materialidade que se possa quantificar. Nas auditorias que fazemos às faturas do último ano, encontramos com regularidade três tipos de sobrecusto: potência mal dimensionada, custos de serviços de sistema sem qualquer regularização (o que expõe a empresa a risco, caso haja desvios face ao mercado) e erros de faturação ou conceitos duplicados que nunca ninguém validou tecnicamente”.
“Multiplicado por 12 meses de fatura e, por vezes, por vários anos de contrato, o valor acumulado costuma surpreender quem nunca tinha feito essa análise. É por isso que preferimos sempre começar pela auditoria porque, sem números concretos, fica tudo na estimativa e uma estimativa não corrige a exposição”, acrescentou.
Ora, nesta senda, a “monitorização muda tudo, porque passamos de descobrir o desvio só quando a fatura chega para passar a antecipá-lo“.
“E não nos ficamos por aqui. Somos proativos e dotamos os clientes, através de automatização e de formação, das condições para monitorizarem eles próprios os índices e Indicadores-Chave de Desempenho (KPI) que sejam relevantes para o seu negócio, indexados não só ao consumo energético, mas também ao custo energético”, referiu ainda a responsável.
Susana Pires esclareceu também que “isto é particularmente relevante, porque o spread diário (diferença entre o preço máximo e o mínimo no mercado) tem sido significativo e com tendência crescente”.
“Uma empresa que só olha para o consumo, sem cruzar com este custo variável ao longo do dia, está a ignorar metade da equação. E, no caso de clientes eletrointensivos, este acompanhamento contínuo pode ser a diferença entre manter ou perder o estatuto: permite antecipar, com meses de antecedência, se algum requisito de elegibilidade está em risco de deixar de ser cumprido”, adiantou a responsável.
Significa isto que gerir bem a energia é um fator decisivo de competitividade? Susana Pires acredita que sim: “E as empresas que ainda não perceberam isso vão sentir a diferença nos próximos anos, não só na fatura, mas também na competitividade, face a quem já gere a energia de forma ativa. No entanto, gerir bem a energia não se esgota em negociar um preço mais baixo, passa igualmente por uma análise rigorosa das próprias condições contratuais, que a maioria das empresas nunca chega a questionar”.
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