Na Letónia, durante os dias de tensão de 1991, os veículos blindados de transporte das forças especiais soviéticas encontravam-se a dezenas de metros do primeiro Conselho Supremo da então República Soviética, eleito com relativa liberdade e reunido no que é hoje o edifício do parlamento, ou Saeima, para votar a declaração de independência total.
“Lembro-me do dia em que o meu pai fazia parte do 13.º Batalhão da Guarda Nacional, a guardar diretamente o gabinete dos ministros. E lembro-me de que, em criança, queria acompanhá-lo nesses eventos, mas a minha mãe não me deixava. Pelo menos, eu preparava ‘cocktails’ Molotov para toda a brigada da Guarda Nacional”, recordou o primeiro-ministro letão, Andris Kulbergs, referindo-se à Guarda Nacional, uma força voluntária de auto-defesa militar e proteção civil, durante uma reunião comemorativa que decorreu hoje no Saeima.
Entre o público da sessão encontravam-se antigos legisladores que tinham votado a favor da independência da Letónia a 04 de maio de 1990 e, novamente, a 21 de agosto do ano seguinte, perante o avanço dos veículos blindados soviéticos.
Kulbergs adotou um tom menos otimista no seu discurso comemorativo ao referir-se à guerra em curso na Ucrânia.
“Hoje, com maior clareza do que em 1991, reconhecemos a importância do estatuto de Estado, da liberdade e da independência da Letónia. Isto foi-nos cruelmente recordado pela hostilidade brutal da Rússia contra a Ucrânia, compreendemos bem o povo ucraniano. Porque também na nossa terra sofremos os horrores da guerra, da ocupação e da repressão impostas pela Rússia e pelo poder soviético”, afirmou.
A independência de facto dos Estados bálticos surge após o dramático golpe falhado contra o então líder soviético Mikhail Gorbachev e o colapso da União Soviética (URSS).
Na Estónia, o primeiro-ministro, Kristen Michal, também recordou, um dia antes, o fim da dependência da União Soviética.
“Há 35 anos, conseguimos libertar-nos completamente das correntes da ocupação. Naquela altura, tínhamos poucos recursos. Não sabíamos se a liberdade iria perdurar. Mas tínhamos uma vontade de ferro e uma visão clara: a ambição de viver em liberdade, decidir o nosso próprio futuro e construir uma Estónia melhor para todos”, afirmou.
Michal, num discurso proferido na quinta-feira de manhã durante a cerimónia de hasteamento da bandeira na capital, Tallinn, afirmou que atualmente os estónios podem “erguer o olhar e ver que o mundo olha para a Estónia com respeito”.
A cerimónia matinal em Tallinn deu início, na quinta-feira, a um dia de celebrações, que incluiu eventos públicos, uma sessão cerimonial do parlamento (Riigikogu), um discurso do Presidente, Alar Karis, e saudações da Presidente islandesa, Halla Tómasdóttir, em visita oficial à Estónia.
A Islândia foi um dos primeiros países a reconhecer a independência dos países bálticos em agosto de 1991.
A Lituânia, que declarou a sua independência a 11 de março de 1990, não tomou medidas adicionais para ratificar esse documento durante o golpe de Estado de agosto de 1991 e comemorou o dia 21 de agosto como a data em que um soldado voluntário morreu a defender o parlamento lituano contra as forças soviéticas.
“O soldado voluntário Arturas Sakalauskas morreu a 21 de agosto de 1991, durante a agressão do exército de ocupação, enquanto defendia, juntamente com os seus companheiros voluntários, o parlamento lituano. Nunca esqueceremos os heróis que sacrificaram as suas vidas pela independência da Lituânia”, afirmou o primeiro-ministro, Mindaugas Sinkevicius, que era ainda uma criança em 1991, num comunicado divulgado hoje pela emissora pública LRT.
Sinkevicius também se referiu à Ucrânia e descreveu a Rússia como “um país infeliz e zangado com o mundo, que não só provocou uma guerra terrível na Ucrânia, como também continua a lançar raios de ira contra todas as pessoas que amam a liberdade”.
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