“Fico até ter de ser”, diz à Lusa esta sevilhana “atriz e comercial”, sentada dentro de uma das centenas de tendas que estão no acampamento de protesto instalado na Porta do Sol, no coração turístico da capital espanhola e à porta da presidência do governo autonómico, liderado pelo Partido Popular (PP, direita).
Segundo o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madrid, a associação que coordena o protesto, há perto de 400 tendas na praça neste momento e 600 pessoas dormiram na última noite no local.
O objetivo é manter o acampamento pelo menos até terça-feira, dia de Conselho de Ministros, para pressionar o Governo, liderado pelo Partido Socialista (PSOE) a aprovar um decreto reiteradamente prometido pelo executivo com medidas para prevenir despejos de pessoa vulneráveis e outras medidas para proteger inquilinos e promover o acesso à habitação. Segundo dados oficiais, há 45 despejos diários em Espanha.
Minutos antes de falar com a Lusa, René Martin terminou uma reunião ‘online’, com o computador que levou para o protesto. Está também de vigia à tenda do lado, cujos proprietários foram trabalhar durante o dia e voltarão ao final da tarde, para nova noite na Porta do Sol.
“Vou sempre às manifestações e queria há muito tempo que acontecesse um coisa como esta. Custa muito sair da rotina e dar um passo. E quando vi que se tinha dado um passo grande, fui comprar a tenda e vim para aqui. Tinha de estar”, conta.
René Martin faz, sobretudo, teletrabalho, não tem filhos e tem meios para comprar uma tenda e juntar-se o protesto: “Todos os podem têm de estar. É o momento”.
René Martin vive em Madrid há cinco anos e já mudou de casa seis vezes. Já passou por um sótão no centro “em que não dava para estar de pé” por que pagava 800 euros, com o então namorado. Agora vive com uma amiga, num apartamento nos subúrbios que é da família da companheira de casa e pelo qual paga “pouco mais do que os gastos”.
Sabe que “tem muita sorte” porque se quiser viver sozinha ou mesmo constituir uma família “é impossível”, porque nem “dois salários médios de 1.200 euros” chegam para arrendar ou comprar uma casa.
Romana Flores, 27 anos, também atriz, de Málaga e amiga de René, entra na conversa para contar à Lusa que vive hoje numa casa com mais duas pessoas, mas já chegou a partilhar um apartamento com mais cinco “e não só estudantes, algumas muito mis velhas, com mais de 60 anos”. Todas sem possibilidade de viver noutras condições, pelos salários que ganhavam ou na sequência de divórcios.
“Vim para Madrid para concretizar um sonho, não para ser escravizada”, diz Romana, para sintetizar como sente o problema da habitação na pele.
Como René e Romana, a maioria dos acampados na Porta do Sol são jovens e pessoas com menos de 40 anos com dificuldade em projetar um futuro por causa do custo das casas.
Em volta do acampamento estão, entre os agora menos turistas que passam pelo local, dezenas de pessoas mais velhas, a maioria reformadas, em apoio e solidariedade com os jovens que fazem o protesto.
“Estão aqui por todos, também por nós. Tínhamos de estar também lá dentro [do acampamento}”, grita uma mulher a um homem indignado por a praça estar ocupada e não poder atravessar.
José Luis Juste, 70 anos, aproxima-se de um porta-voz do Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madrid e pergunta para que conta bancária pode fazer um donativo para ajudar o acampamento a manter-se o tempo que for preciso.
“É uma barbaridade que gente jovem e idosos estejam nas mãos dos ‘fundos abutres'”, disse à Lusa, referindo-se aos fundos de investimento como o que comprou a casa de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada na semana passada da casa em que viveu em Madrid desde 1957 e cujo caso tem mobilizado dezenas de milhares de pessoas para protestos em Espanha, incluindo o acampamento da Porta do Sol.
René Martin terá de sair do acampamento para ir ensaiar e representar na peça de tetro em que está a trabalhar pelo menos duas noites desta semana. Quando isso acontecer, e se for preciso, uma amiga ficará na tenda, para o protesto se manter vivo e a Porta do Sol continuar ocupada. O mesmo aconterá com Davia Iglesias, 25 anos, empregado de mesa, que coordenará os horários de trabalho com um amigo, para manterem ocupada a tenda que levaram para o acampamento.
Como René, partilha uma casa “com três quartos e duas casas de banho” com dois colegas e considera que está “muito bem”, mas “toda a gente” à sua volta “precisa de uma casa e não tem acesso” pelo que está e continuará na Porta do Sol “pelos que não podem”.

Centenas acampam pela segunda noite em Madrid em protesto pela habitação
Centenas de pessoas estão a passar a segunda noite acampadas no centro de Madrid, apesar da descida das temperaturas e da previsão de chuva, para exigir medidas contra a crise da habitação.
Lusa | 03:13 – 28/09/2026



