“[Gostávamos] que nos dessem uma contrapartida para não fazermos mais isto, que acarreta prejuízos para as nossas empresas. Queremos que hoje isto seja resolvido, nos ouçam, e que tenhamos o tão esperado gasóleo profissional”, disse à Lusa Rui Cunha, um dos empresários deste subsetor da construção civil que aderiu ao protesto.
Na rotunda junto à entrada de Lordelo na A41, numa zona industrial, eram muitos os camiões que esperavam “guia de marcha” para entrarem naquela autoestrada, da qual seguiriam, até Coimbra, a baixa velocidade e com muitos a buzinarem.
Acompanhados pela GNR, seguiram até Coimbra, via A1, e entre as conversas reinavam palavras como prejuízo e uma reivindicação frequente: a adesão ao regime fiscal do gasóleo profissional, à semelhança de outros setores e subsetores.
“Hoje, os camiões param. A importância deles, não”, podia ler-se na frente do camião que abriu a coluna.
Bruno Neto comentava os aumentos “brutais” todas as semanas, com um peso de 30% nas contas da empresa, com “70% da faturação a ir para o combustível”.
“Nos contratos assumidos, não conseguimos fazer nada. Nos novos, estamos a tentar, mas o cliente, aí, simplesmente não aceita. Começa a rejeitar porque é muito, e não se faz a obra. Tentamos ajustar-nos para ter trabalho. Temos de trabalhar, e depois chegamos ao fim, fazemos contas, e aquilo que sobra é muito pouco”, lamentou.
Questionado sobre se na empresa onde trabalham 27 pessoas pode haver risco de despedimento ou de fecho, disse que “ainda não”, mas “se isto continuar assim, caminha para isso”.
Rui Cunha pediu que o subsetor seja ouvido, porque a situação é “quase insuportável”, com contratos “com muita dificuldade para poder atualizar [os preços]” e novos clientes que ponderam se fazem a obra ou não.
Cipriano Jorge, outro dos manifestantes, afirmou que é “impossível para os patrões suportar os aumentos, pelos consumos dos camiões”.
“É muito triste quando vemos uma parte global dizer que as petrolíferas têm lucros abismais. Como é possível estarmos a pagar isto e as petrolíferas com o dobro [do lucro]? Não é possível”, criticou.
Espera que a marcha lenta consiga “tocar em alguém, para que baixe o preço, para se poder trabalhar”.
“Se não, ainda vamos todos para o fundo de desemprego, porque não há empresa que suporte estes custos”, desabafou.
Essa escuta poderá surgir na segunda-feira, uma vez que há uma reunião agendada com o Governo nesse dia, em Lisboa, segundo avançou à Lusa o representante do movimento, o advogado Miguel Machado Mendes.
“Recebemos contacto do gabinete do ministro das Infraestruturas e Habitação [Miguel Pinto Luz], no dia de ontem [quinta-feira], dando nota que está atento às nossas reivindicações e na sequência da qual foi marcada uma reunião, para a próxima segunda-feira, em Lisboa”, disse à Lusa Miguel Machado Mendes.
A marcha arrancou com mais de uma centena de viaturas, para exigir “respostas concretas” ao aumento dos combustíveis.
O representante dos promotores da iniciativa estimou hoje no local que são esperados perto de meio milhar de pesados neste protesto, que se juntarão ao longo do percurso até Coimbra.
Segundo Miguel Machado Mendes, há quatro pontos de concentração com mais viaturas que se vão juntar à coluna, o que lhes dá uma “certeza” de meio milhar de viaturas pesadas nas estradas.
“O que estas empresas pedem é que nos ouçam, ouçam as nossas reivindicações, que acolham os nossos pedidos. Entendemos que é uma luta justa e que defende o setor”, acrescentou.
O movimento, que anunciou na quarta-feira a participação de mais de 100 empresas e 400 carros pesados, iniciou hoje a marcha a partir daquela entrada na autoestrada na zona de Paredes, no distrito do Porto.
O protesto reúne empresas ligadas à extração de inertes, transportes, movimentação de terras e outras do ramo das terraplanagens.
Este subsetor da construção civil sente-se “muito exposto e vulnerável ao aumento do custo das energias”, nomeadamente do gasóleo, sendo este “um custo de produção que significa quase 70% do preço final” que as empresas apresentam aos clientes.
“Desde 27 de fevereiro deste ano, o preço do gasóleo em Portugal passou de 1,59 euros para 2,22 euros por litro, um aumento de 63 cêntimos por litro”, concretizam numa nota de imprensa os promotores da iniciativa, admitindo que esta “subida histórica” está a levar a um “cenário insustentável”.
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