Escrita pelo próprio Mário Centeno, em parceria com o jornalista Filipe Santos Costa, a obra, editada pelo Clube do Autor, será apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian pelo historiador José Pacheco Pereira.
Em 470 páginas, “Contas Certas” junta a revelação de elementos biográficos à descrição do percurso profissional do economista Mário Centeno até ao momento em que foi convidado pelo socialista José Vieira da Silva, numa pastelaria em Alvalade, para liderar o ‘grupo de sábios’ do PS, no final de 2014.
É o próprio Centeno que conta, na primeira pessoa, episódios ocorridos durante o período de governação e durante os preparativos que o antecederam, relatando, por exemplo, que durante a elaboração do cenário macroeconómico com que em 2015 o PS se apresentaria a eleições, guardou uma imagem da Nossa Senhora de Fátima na pasta de trabalho.
Fê-lo à espera do momento em que fosse preciso “tirá-la do seu sossego”, caso “a racionalidade falhasse” e se visse obrigado a entregar a coordenação dos trabalhos à santa porque “esse tipo de caminho precisa de uma figura imaterial”.
“Nunca foi preciso tirá-la do seu sossego, mas esteve presente em todas as reuniões”, escreveu.
No dia em que tomou posse como ministro das Finanças, conta que assim que chegou ao Terreiro do Paço mandou retirar os tapetes e limpar os sofás porque no seu gabinete do Ministério das Finanças “tudo parecia e cheirava a passado”.
Durante os quase cinco anos em que exerceu funções governativas, parte deles também como presidente do Eurogrupo, o ex-ministro confessa que alcançar as “contas certas” custou-lhe “muito trabalho, desde a nascença”.
Ao longo do livro, descreve a passagem pelas Finanças desde a preparação, “em apneia”, do Orçamento do Estado para 2016, a resolução do Banif, o relançamento da venda do Novo Banco e a recapitalização da CGD até ao último Orçamento, o de 2020, mas também o primeiro entregue no parlamento com previsão de saldo positivo (o primeiro superavit viria a ser apurado ainda em 2019).
Pelo meio, é referido o “caso António Domingues”, nomeado para gerir a CGD por um salário de 30 mil euros e que viria a provocar o primeiro conflito com o então Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, a dramatização das cativações, a eleição como presidente do Eurogrupo, o momento “mais difícil” da pandemia e as razões que o levaram a tomar a decisão de deixar funções governativas, em meados de 2020.
Depois da vitória nas eleições de 2019, Mário Centeno sugeriu a António Costa ocupar “um papel transversal” no governo que lhe permitisse “olhar para a área da Saúde” e fazer mudanças na sua gestão financeira, mas o primeiro-ministro “ouviu e não reagiu”.
O ex-ministro só viria a saber que a sua oferta tinha sido recusada “antes de o novo elenco governativo ser enviado para o Palácio de Belém”.
Outro momento delicado entre Centeno e Costa terá sido vivido no dia da transferência de 850 milhões de euros do Fundo de Resolução para o Novo Banco, quando Costa, num ato público com Marcelo, disse não ter conhecimento da realização dessa injeção que estaria dependente de uma auditoria que ainda não era conhecida.
O episódio só ficou sanado após a divulgação de um comunicado esclarecendo “a falha de informação” ocorrida e explicando que o primeiro-ministro reafirmava a “confiança pessoal e política” no seu ministro das Finanças.
“Contas certas” termina com uma reflexão do ex-ministro das Finanças sobre as condições necessárias para “garantir o desenvolvimento económico” do país.

Centeno propôs a Costa deixar pasta das Finanças para reformar a Saúde
O antigo ministro das Finanças Mário Centeno considerava que o setor da Saúde precisava de alterações na forma como os recursos eram geridos e pretendia exercer funções como ministro de Estado ou “um título semelhante”. Apesar disso, a pandemia de Covid-19 acabaria por tornar inviável qualquer tentativa de reforma.
Notícias ao Minuto | 10:40 – 21/09/2026



