“Quando se mostra uma mulher muito forte, confiante, não vitimizada, empoderada, seja qual for a sua aparência, isso vai substituir o estereótipo por uma versão um pouco mais próxima da verdade”, acredita a empresária árabe-americana, nascida e criada em Paris (França) e atualmente a viver em Genebra (Suíça), que falou com a agência Lusa.
Elissa Freiha fundou a Womena para “deixar as mulheres árabes falarem por si” e “esperar que as suas vozes se amplifiquem”.
A plataforma digital feminista, em funcionamento há 15 anos, dedica-se a amplificar as vozes e as narrativas dessas mulheres, em múltiplos formatos (artigos, podcasts, filmes, projetos de arte, exposições).
“Não cobrimos notícias, mas tentamos cobrir a nossa perspetiva sobre certos acontecimentos ‘mainstream’ [convencionais] que possam acontecer”, ressalva.
“Muito do que fazemos é, essencialmente, facilitar uma plataforma a mulheres que já existem, que estão a fazer coisas incríveis, que têm uma perspetiva ou uma forma de pensar muito específica e dar-lhes um público mais vasto”, resume, realçando que o público da Womena transcende a geografia árabe, espalhando-se pela Europa, América do Norte, América do Sul.
“Nos últimos 15 anos, o espaço para ouvir histórias de mulheres expandiu-se exponencialmente”, quantifica, recordando que a Womena, quando começou, estava praticamente sozinha e hoje existem muitas outras plataformas semelhantes.
Elissa Freiha considera que fazia falta uma “perspetiva muito específica do feminismo para as mulheres árabes ou do feminismo das mulheres árabes”, contrariando a “perspetiva muito ocidentalizada que estava a ser imposta”.
À “fetichização das mulheres árabes, que só existe na imaginação das pessoas”, a Womena contrapõe as matizes da realidade.
“Não acho que seja mais difícil ser mulher no Médio Oriente em particular, acho que é difícil ser mulher neste momento, no mundo”, constata, realçando que as redes sociais permitiram “ver que as mulheres em Portugal, na Alemanha, no Brasil, no Canadá e no Iraque partilham frustrações semelhantes” e que “a ameaça à segurança das mulheres é global”.
Elissa Freiha critica “a mentira” que tem sido espalhada “de que é mais duro ser mulher nesta parte do mundo” e que “serve um propósito muito específico”, o de fazer as mulheres árabes parecerem “sempre as vítimas (…) que precisam de ajuda ocidental, quando também as mulheres ocidentais sofrem profundamente”.
Como todas as outras mulheres, também as árabes têm somado “vitórias e derrotas”, com “progressos significativos” nos seus direitos humanos, por exemplo no que diz respeito aos cuidados de saúde, à parentalidade, à custódia dos filhos.
Na verdade, essa “perspetiva de que os direitos das mulheres [árabes] são piores” tem resultado em mais financiamento, quer internacional quer nacional, e “os governos locais têm-se focado em melhorá-los”.
Claro que, reconhece, “ainda há um longo caminho a percorrer”, mas na Europa Ocidental “parece que o feminismo já aconteceu” e isso não deixa ver “onde as violações dos direitos humanos estão a acontecer debaixo dos seus próprios tetos”.
Elissa Freiha emociona-se ao falar dos conflitos em curso na região, desde logo porque tem família em vários dos países afetados.
“As mulheres e as crianças são historicamente e globalmente as pessoas que mais sofrem com o conflito armado, não há guerras que não afetem civis”, lembra, recordando que no início da ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, no final de fevereiro passado, um ataque norte-americano atingiu uma escola para jovens raparigas em Minab, no sul do território iraniano.
“As pessoas que estão a levar a cabo atos de violência na nossa região têm um grande desprezo pelas vidas civis”, nota a ativista, alertando para os impactos nas próximas gerações.
Os atuais conflitos são alimentados por “exércitos brutais” que “estão a envenenar a terra” e “a atacar mulheres e crianças, de forma descarada e aberta, porque querem impedir o ato de procriar”, denuncia.
E, neste contexto, “são as mulheres que ficam a juntar os pedaços, a tentar salvar lares, a tentar cuidar da próxima geração”.
Assertivamente feminista, Elissa Freiha encara a guerra como “o auge da toxicidade colonial patriarcal”. Por isso, não se pode “enfrentar os conflitos sem abordar todo o sistema que o está a tornar possível e o está a proteger”.
A Womena tenta fornecer “algum tipo de antídoto a essa toxicidade”, na convicção de que o sistema patriarcal instituído tem impacto não apenas nas mulheres, mas também nos homens, afeta “toda a gente, em todo o lado”.
Depois de “tempos difíceis, mais sombrios e dolorosos”, Elissa Freiha antecipa o futuro com otimismo, acreditando que o feminismo venha a ser reconhecido pela luta contra “um sistema que não beneficia ninguém, não beneficia os homens, não beneficia as mulheres, beneficia literalmente uma pequena percentagem de pessoas que estão no topo deste tipo de cadeia alimentar de poder”.
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