As autoridades alemãs continuam a investigar o ataque como um atentado terrorista de motivação islamista, depois de o suspeito ter divulgado, antes do ataque, um vídeo em que declarava lealdade ao grupo extremista Estado Islâmico (EI).
O ataque, que causou um morto e dezenas de feridos, levou ao cancelamento da “Love Train”, parada de música ‘techno’ que estava prevista para decorrer em Berlim, em agosto, e desencadeou uma onda de condenação dentro e fora da Alemanha.
Para Frank Decker, professor de Ciência Política da Universidade de Bona, o atentado vai desencadear “uma dupla discussão” no panorama político alemão.
“Os partidos da União Democrata Cristã e da União Social Crista (CDU/CSU) vão defender um agravamento das penas e um reforço da vigilância sobre pessoas consideradas perigosas, enquanto os partidos de esquerda vão insistir numa melhor proteção das pessoas ‘queer’. O tema chega assim à agenda política por duas vias”, disse à Lusa.
Marc Debus, professor da Universidade de Mannheim, concordou que o ataque vai alterar as prioridades do debate político.
“Os temas da migração, integração e segurança interna vão voltar a ocupar um lugar central na agenda política e serão novamente percecionados por muitos cidadãos como o principal problema”, sustentou.
Os dois especialistas admitiram igualmente que quem poderá retirar maior benefício político da nova conjuntura é a Alternativa para a Alemanha (AfD, populista de extrema-direita).
“Quem beneficia, em caso de dúvida, é a AfD, porque o ataque favorece o seu discurso anti-imigração”, afirmou Decker, considerando irrelevante, para esse efeito, que o partido mantenha posições frequentemente criticadas pelas organizações de defesa dos direitos LGBT+.
Debus recordou que a AfD já é identificada por muitos eleitores como o partido mais competente para lidar com questões relacionadas com a imigração e o terrorismo islamista.
“Se os temas da migração, integração e terrorismo islamista permanecerem na agenda política até às eleições de setembro, a AfD poderá beneficiar ainda mais”, realçou.
O politólogo lembrou que o partido lidera atualmente as sondagens para as eleições regionais na Saxónia-Anhalt, a 06 de setembro, podendo conquistar mesmo uma maioria absoluta dos mandatos.
Para Decker, a resposta política ao atentado não deverá limitar-se às questões migratórias.
Na opinião do especialista, enquanto os partidos conservadores vão insistir no reforço dos instrumentos de segurança, a esquerda vai procurar recentrar o debate na proteção das minorias e no combate aos crimes de ódio dirigidos contra pessoas LGBT+.
O chanceler federal, Friedrich Merz, condenou o atentado e prometeu uma resposta firme ao terrorismo, enquanto o Governo anunciou uma revisão das medidas de segurança e admitiu discutir alterações legislativas.
Mas, para Decker, sempre que ocorre um atentado terrorista “isso representa um problema para os partidos que estão no Governo”.
“A União cumpriu uma importante promessa eleitoral ao agravar a política migratória. Mas os cidadãos não sentem que a segurança tenha melhorado quando continuam a acontecer ataques deste tipo”, sublinhou.
Também Debus disse acreditar que o Governo vai procurar responder através de novas iniciativas legislativas, incluindo um eventual agravamento das regras relativas à nacionalidade alemã para cidadãos com dupla nacionalidade condenados por terrorismo.
No entanto, considerou que essas propostas vão poder gerar novas tensões dentro da coligação governamental entre CDU/CSU e SPD (Partido Social Democrata).
Para ambos os especialistas, embora a economia continue a pesar nas preocupações dos eleitores, o atentado deverá manter a imigração e a segurança entre os temas dominantes da campanha até às eleições de setembro.

Associações ‘queer’ pedem reforço da segurança após ataque em Berlim
A associação para diversidade ‘queer’ alemã pediu medidas concretas de segurança, afirmando que o atentado de sábado passado em Berlim aumentou receios, mas também reforçou a determinação da comunidade em manter-se visível.
Lusa | 07:12 – 01/08/2026



