Responsáveis dos Estados Unidos e do Irão concluíram na quarta-feira negociações técnicas e de forma indireta no Qatar visando pôr um fim duradouro às hostilidades no Médio Oriente, após trocas de ataques ameaçarem a trégua.
Estas reuniões seguiram-se à assinatura, a 17 de junho, de um memorando de entendimento entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e do Irão, Masoud Pezeshkian, cujas negociações, que supostamente durarão pelo menos 60 dias, incluem as difíceis questões do estreito de Ormuz e do programa nuclear do Irão.
Eis o que se sabe hoje sobre a situação no Médio Oriente:
O que foi aprovado
Segundo a agência oficial de notícias iraniana IRNA, as negociações levaram a um acordo que permite ao Irão adquirir os produtos de que necessita, com parte dos seus ativos congelados no Qatar.
As partes também concordaram criar canal de comunicação para identificar possíveis violações do memorando de entendimento.
O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Kazem Gharibabadi, que estava no Qatar e foi citado pela IRNA, afirmou que “vários temas relacionados com o gasto de parte dos primeiros seis mil milhões de dólares [de fundos, equivalente a 5.257 mil milhões de euros] foram examinados”, referindo-se a parte das receitas petrolíferas do Irão que foram bloqueadas devido às sanções.
Sem detalhar o conteúdo das negociações, os ministérios dos Negócios Estrangeiros do Qatar e do Paquistão, os países mediadores, acolheram o “progresso positivo”. Donald Trump, que enviou os emissários Steve Witkoff e Jared Kushner ao Qatar na terça-feira, falou de “reuniões muito boas”.
Uma fonte próxima das negociações disse à agência France-Presse (AFP), sob condição de anonimato, que se tinham focado nas questões relacionadas com o estreito de Ormuz, enquanto a questão nuclear deverá ser discutida com mais detalhe numa data posterior.
Conversações de alto nível foram realizadas entre os dois países no final de junho na Suíça, mas desde os ataques dos EUA na semana passada, Teerão recusou conversações diretas.
Retoma após o funeral de Khamenei
Doha e Islamabad disseram que as negociações serão retomadas após o funeral do ‘ayatollah’ Ali Khamenei, que começa no sábado em Teerão e durará seis dias.
O funeral do antigo líder supremo, que foi morto a 28 de fevereiro, no primeiro dia da ofensiva israelo-americana contra Teerão, após quase 37 anos de governo da República Islâmica, estava inicialmente agendado para o início de março, mas foi adiado devido à guerra.
Mohammad Bagher Ghalibaf, chefe da equipa de negociação iraniana e presidente do parlamento, apelou hoje para os iranianos “vingarem” a morte do antigo líder com uma participação em massa nas cerimónias.
As autoridades esperam entre 15 e 20 milhões de pessoas só na capital.
Não está claro se o filho de Khamenei, Mojtaba, que lhe sucedeu no início de março, participará. O novo líder não apareceu em público desde a sua nomeação.
E no terreno?
O estreito de Ormuz, estratégico para o comércio global de hidrocarbonetos, é um dos principais pontos de discórdia.
Não houve ataques a navios nos últimos dias, mas esta rota marítima entre o Oceano Índico e o Golfo Pérsico, é alvo de tensões.
O Irão insiste que quer impor um direito de passagem, uma medida considerada inaceitável pelos Estados Unidos.
Numa reunião no Bahrein, responsáveis da defesa de 12 países, principalmente do Golfo, sublinharam o seu “compromisso partilhado com o livre fluxo de comércio” através do estreito, informou o Comando do Médio Oriente dos EUA (Centcom) na quarta-feira na rede X.
Ormuz está “sob o comando do Irão, não do Centcom”, retorquiu Kazem Gharibabadi no X.
A segurança da região, continuou, será “assegurada em particular pelo fim das intervenções e pela retirada dos Estados Unidos da área” e pelo “respeito pela soberania dos países”.
Na frente libanesa, os combates entre Israel e o grupo xiita Hezbollah acalmaram nos últimos dias, embora a agência oficial de notícias libanesa ANI tenha reportado um ataque na noite de quarta-feira a Nabatiyeh (sul), sem reportar quaisquer vítimas.
Teerão exigiu incluir o Líbano nas negociações, enquanto Israel ocupa parte do sul do país.
Num processo diplomático paralelo, um acordo-quadro para uma “paz duradoura” foi assinado na semana passada em Washington entre Israel e o Líbano.
O acordo condicionou a retirada de Israel ao desarmamento do Hezbollah, apoiado pelo Irão, que recusa fazê-lo.
O texto também prevê que o exército libanês entregue gradualmente o controlo das “áreas piloto” no sul com o objetivo de permitir eventualmente o regresso dos civis, mas Beirute está à espera que o exército israelita inicie a sua retirada.
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