Em declarações aos jornalistas em Estrasburgo, França, após a cerimónia de entrega da recém-criada Ordem Europeia do Mérito aos primeiros 20 laureados, Cavaco Silva disse que “talvez” esteja entre os nomeados porque sempre defendeu ao longo da sua vida “o aprofundamento da integração europeia”, que continua a considerar fundamental e urgente.
“Hoje é um dia muito particular para mim. Recebi a Ordem do Mérito Europeu e completam-se precisamente hoje 41 anos da minha eleição, na Figueira da Foz, para presidente do Partido Social-Democrata. Foi uma mudança muito profunda na minha vida. Até aí, tudo se encaminhava para uma vida profissional como economista e como docente universitário”, começou por dizer.
“Mas hoje eu estou aqui em razão daquilo que tenho dito, daquilo que disse do muito que escrevi ao longo da minha vida sobre o processo de integração europeia”, disse, já ostentando na lapela a medalha da Ordem de Mérito, a primeira distinção europeia concedida pelas instituições da UE a indivíduos (e não organizações) que deram contributos excecionais para a unidade europeia, a democracia e os valores fundamentais da União Europeia (UE).
Apontando que, “mesmo depois de terminar a vida política ativa”, quando concluiu o mandato como Presidente da República, continuou a “acompanhar, a falar e a escrever muito sobre a integração europeia”, Cavaco Silva, que recebeu a medalha da Ordem das mãos da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu que há “reformas que a UE não pode deixar de fazer, para reforçar o seu poder geoeconómico, geopolítico e tecnológico”.
Entre as “opções estratégicas e grandes prioridades que a UE deve assumir”, começou por apontar o “aprofundamento do mercado interno, reduzindo obstáculos à livre circulação dos bens, serviços e capitais entre os diferentes países”, que considerou “fundamental para o crescimento económico e aumento da produtividade”.
De acordo com Cavaco, a segunda prioridade deve passar por “completar a União Económica e Monetária, com destaque para a criação do mercado europeu de capitais”, sendo também fundamental “terminar e completar a União Bancária” e “aumentar a coordenação no domínio da indústria, em particular na área da Defesa”, que está completamente “fragmentada”.
“Há aqui um trabalho muito forte por forma a conseguir que se aproveitem todas as potencialidades da Europa para conseguir recuperar os atrasos tecnológicos e de crescimento económico em relação à China e em relação aos Estados Unidos”, disse.
Insistindo que “é fundamental aprofundar a integração europeia”, Cavaco Silva defendeu que “Portugal tem de estar na linha da frente desse processo”.
“Eu espero que Portugal não tenha a mínima hesitação em relação ao aprofundamento, porque essa é a única forma de afirmarmos internacional o poder da Europa na parte tecnológica. É da maior importância”, disse, comentando então que se hoje está entre os laureados em Estrasburgo é “talvez” porque defendeu, “ao longo da vida, o aprofundamento da integração europeia”.
Elogiando o “extraordinário discurso” do primeiro-ministro canadiano Mark Carney em Davos, no início do ano, quando disse que os países de média dimensão ou se sentam à mesa ou farão parte do menu, Aníbal Cavaco Silva fez votos para que “a UE, juntamente com Canadá, África do Sul, Índia, Japão e Brasil, formem uma certa unidade de pontos de interesse para poderem, com a sua força, sentar-se à mesa com China e EUA, e não serem simplesmente explorados”.
Pouco antes, no discurso de aceitação da Ordem Europeia do Mérito, no hemiciclo de Estrasburgo, Cavaco Silva defendera que, “num tempo de forte instabilidade e incerteza mundial, de conflitos armados e ameaças, em que a voz de cada país isoladamente pouco conta, a União Europeia é um ativo da maior importância para todos os Estados membros”.
Na cerimónia de entrega da primeira distinção europeia concedida pelas instituições da UE a indivíduos (e não organizações) que deram contributos excecionais para a unidade europeia, a democracia e os valores fundamentais consagrados nos Tratados da União, estiveram presentes 13 dos 20 laureados e também a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que entregou a medalha a Cavaco Silva.
A Ordem é composta por três níveis de distinção crescente – membro, membro honorável e membro distinto -, tendo a mais alta distinção (também denominada insigne) sido atribuída a Merkel, Walesa, ambos presentes hoje em Estrasburgo, e ao Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que não marcou presença, enquanto Cavaco Silva foi laureado como membro honorável.
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