“Eu creio que fizemos um caminho, um caminho que foi, sem dúvida, interrompido pelos acontecimentos a nível internacional que marcam também algum retrocesso no papel que as instituições multilaterais têm, portanto, é um momento muito difícil, mas eu creio que continuamos a fazer esse caminho e hoje a CPLP tem muito mais relevância internacional do que antes”, disse o timorense Zacarias da Costa, em entrevista à Lusa.
O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste exerceu o cargo de secretário-executivo da CPLP durante dois mandatos entre 2021 e 2025.
Zacarias da Costa salientou que o processo de afirmação continua a decorrer, mas que, por exemplo, nos últimos quatros anos a CPLP trabalhou mais de perto com as organizações internacionais, celebrou acordos e vários países manifestaram interesse em se tornarem observadores associados.
“Essencialmente, a CPLP ainda é uma organização governamental. Temos feito o esforço de nos aproximar mais dos cidadãos, tornar a organização mais uma organização de povos, mas eu sei que isso leva muito tempo, porque, enfim, não é fácil acompanhar a dinâmica dos noves países que andam com ritmos diversos, com dinâmicas diversas”, disse.
Questionado sobre se a CPLP deveria apostar mais na integração económica, Zacarias da Costa afirmou que tem sido feito um esforço nesse sentido desde a última presidência de Timor-Leste da organização, entre 2014 e 2016.
“Nos últimos anos, tem-se feito um esforço enorme para que os países possam caminhar mais depressa na cooperação económica”, afirmou, salientando que depende muito da dinâmica dos países.
O ex-ministro timorense deu como exemplo a possibilidade de criação de uma instituição financeira para dar crédito aos empresários da CPLP, que ainda não conseguiu o consenso dos Estados-membros.
Mas, recordou, foi criada a direção dos assuntos económicos e empresariais pelo secretariado e o estabelecimento do Fórum das Agências de Promoção de Investimento.
“Temos várias iniciativas, mas ainda não chegámos ao ponto de afirmar que, sim, a CPLP hoje está com a vertente económica consolidada. Longe disso, precisamos de trabalhar muito mais”, sublinhou.
Sobre as críticas feitas à organização de ter demasiadas declarações e poucos resultados, o ex-secretário executivo afirmou que é um “processo também”, defendendo que é preciso passar das “declarações a atividades concretas”.
“Obviamente, que isso significa também reestruturar-se para estar mais perto dos cidadãos”, afirmou.
“Hoje, ainda é uma organização muito pesada, eu reconheço e os Estados-membros também reconhecem, mas eu creio que é possível trabalharmos no sentido de não ficarmos apenas nas declarações, e muitas vezes são declarações muito bonitas, mas que os compromissos assumidos nas cimeiras nas reuniões ministeriais possam tornar-se realidade no dia-a-dia da CPLP”.
Zacarias da Costa defendeu que a CPLP tem de acompanhar o mundo em profundas transformações e mudanças e adaptar-se para assumir os desafios do futuro.
A CPLP foi criada, em Lisboa, em 17 de julho de 1996 por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé Príncipe.
Timor-Leste aderiu à organização em 2002, após a restauração da independência, em 20 de maio do mesmo ano, e a Guiné Equatorial aderiu em 2014, na cimeira da Díli.
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