O mercado de produtos recondicionados está a crescer em Portugal, o interesse é cada vez maior, mas ainda há margem para crescer, de modo a que comprar em segunda mão se torne num “hábito de consumo”.
Em entrevista por escrito ao Notícias ao Minuto, Rúben Lamy, Founder e CEO da BIGhub – uma startup portuguesa especializada na aceleração de vendas nos principais marketplaces europeus -, disse que é, por isso, necessário que o mercado se torne mais profissional, confiável e transparente.
Aliás, transparência é mesmo a chave: “O consumidor precisa de saber exatamente o que está a comprar”.
Como tem evoluído o mercado de produtos recondicionados em Portugal nos últimos anos?
O mercado dos produtos recondicionados tem vindo a ganhar relevância, por haver uma procura crescente por alternativas mais acessíveis aos produtos novos e devido ao aumento da preocupação dos consumidores com a sustentabilidade. Contudo, ainda há margem de evolução, com 89% dos portugueses a considerar comprar produtos recondicionados ou em segunda mão no futuro, num cenário em que 66% já o fizeram, de acordo com conclusões do estudo “Observador Cetelem”.
O desafio está em transformar este interesse dos consumidores num hábito de consumo. Para isso, será necessário continuar a profissionalizar o mercado e a criar condições para que o consumidor encare os produtos recondicionados como uma alternativa segura e natural à compra de um produto novo, e não apenas como um último recurso.
Um produto recondicionado ou em segunda mão permite que o consumidor adquira um equipamento de qualidade por um valor inferior, ao mesmo tempo que prolonga o seu ciclo de vida e evita que um produto ainda funcional seja prematuramente descartado
O que explica o crescente interesse dos consumidores?
Primeiramente, a crescente literacia e o conhecimento da existência deste mercado. No entanto, a procura por preços mais competitivos e a maior consciência sobre o impacto ambiental das escolhas de consumo são, sem dúvida, fatores importantes. Um produto recondicionado ou em segunda mão permite que o consumidor adquira um equipamento de qualidade por um valor inferior, ao mesmo tempo que prolonga o seu ciclo de vida e evita que um produto ainda funcional seja prematuramente descartado.
Estamos também perante uma mudança cultural. À medida que os consumidores se tornam mais informados, constatam que comprar em segunda mão não significa necessariamente ficar “mal servido”. Se houver transparência sobre o estado do produto, garantia e condições de troca, a decisão deixa de ser apenas económica e passa a ser mais racional e sustentável.
A desconfiança na qualidade e durabilidade continua a ser o principal entrave: como pode o setor combatê-la?
Tal como no comércio eletrónico, em que a desconfiança gerada pela distância física é um obstáculo, a relação tem de ser construída através da transparência. O consumidor precisa de saber exatamente o que está a comprar, em que estado se encontra o produto, que intervenções foram realizadas, que testes foram feitos e que garantia terá. Quanto menos informação existir, maior será a perceção de risco.
Por isso, acredito que o setor deve definir critérios de qualidade, garantias e políticas de troca mais claras e transversais. As avaliações de outros consumidores, bem como as recomendações, também são importantes, tanto neste mercado dos recondicionados e de produtos em segunda mão, como nos marketplaces, onde a ausência de contacto físico exige informação detalhada para reduzir a incerteza.
Haverá sempre situações em que a aquisição de equipamentos novos será uma melhor opção, mas produtos recondicionados e em segunda mão podem afirmar-se como uma alternativa cada vez mais relevante
Que papel têm o e-commerce e os marketplaces na democratização deste tipo de consumo?
O e-commerce tem a importante vantagem de aumentar significativamente a visibilidade e o alcance destes produtos. Um equipamento recondicionado que esteja disponível apenas numa loja física tem, naturalmente, um grande potencial para ser vendido, mas num mercado mais limitado. Já quando é integrado num marketplace, pode ser encontrado por consumidores de diferentes regiões e até de outros países, o que impulsiona a economia circular.
Para além disto, os canais digitais permitem, ainda, apresentar de forma muito detalhada o estado de um produto, comparar preços, consultar avaliações e conhecer as condições de garantia e de devolução. Esta transparência é fundamental no caso dos produtos recondicionados e em segunda mão, porque contribui para a tomada de uma decisão assertiva e informada.
Os produtos recondicionados podem tornar-se uma alternativa real ao consumo de produtos novos? Que setores se destacam?
Acredito que sim, embora isto não signifique que o consumo de produtos novos vá desaparecer, claro. Haverá sempre situações em que a aquisição de equipamentos novos será uma melhor opção, mas os produtos recondicionados e em segunda mão podem afirmar-se como uma alternativa cada vez mais relevante, sobretudo quando a diferença de preços é significativa e existe confiança na qualidade.
Atualmente, a tecnologia e os dispositivos eletrónicos são a categoria com maior adesão, como confirmado pelo estudo “Observador Cetelem”, que concluiu que representam 45% das compras de produtos recondicionados ou em segunda mão. Os números não surpreendem, visto que esta categoria está entre as mais adequadas ao modelo, num contexto em que muitos equipamentos continuam a ser úteis mesmo depois da primeira utilização. Ademais, tratam-se de produtos que podem sempre ser testados e reparados, o que permite que sejam recolocados no mercado e vendidos com selo de qualidade.
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