O presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, considerou, na quarta-feira, que a mensagem que o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho pretendia transmitir “desapareceu perante o estilo que foi escolhido”, ao atirar que os políticos que, para tentarem agradar a todos, ainda mais do que os populistas, se tornam “postiços” e “prostitutos sem caráter”, na terça-feira.
“Por vezes, há determinado tipo de estilos e formas que apagam aquilo que é a substância das comunicações. Portanto, a mensagem de Passos Coelho foi apagada, do ponto de vista substantivo, pelas expressões que utilizou. […] Aquilo que é uma mensagem que poderia ser substantivamente relevante desapareceu perante o estilo que foi escolhido, que foi, de facto, muito agressivo”, disse o autarca, em declarações à SIC Notícias.
Pedro Duarte escusou-se a conjeturar se as palavras de Passos Coelhos eram dirigidas ao atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, ainda que tenha admitido “que a leitura pode ser feita nesse sentido”.
“O azedume é respeitável. Claro que não concordo com os termos e com o estilo; não gosto, de todo. Naquilo que é mais substantivo, diria que, às vezes, até o azedume pode ser útil. Portanto, há que respeitar, em primeiro lugar, esse mesmo azedume e, em segundo lugar, transformá-lo numa oportunidade”, apontou.
Aliás, o político salientou que “o país já beneficiou de ter, por vezes, umas figuras que são uma espécie de nuvens negras que nos alertam e que têm uma visão pessimista e negativa do futuro que temos pela frente”, tendo em conta que “alertam-nos e ajudam-nos a prepararmo-nos para o futuro”.
“Há pessoas que assumiram, há uns anos, que o país ia no caminho errado, que vinha o diabo e que isto ia ser uma desgraça. Às vezes, parece que estamos à espera que o mundo mude para, um dia, nos vir dar razão, e a expectativa é de tal forma que, às vezes, nos cega um bocadinho perante uma análise mais fria e razoável”, explanou.
No entanto, o antigo ministro dos Assuntos Parlamentares confessou que, “em certo sentido, o Governo, na comunicação que tem feito, [pode não estar] a expressar aquilo que é um ritmo de governação que está a imprimir”.
“Enquanto impulso reformista, acho que é um contributo positivo, o que não quer dizer que ache que este Governo não esteja a ser reformista. Admito, e talvez seja até um alerta relevante, que não houve, no passado, uma preocupação em comunicar suficientemente; partilhar, no fundo, com os portugueses esse mesmo impulso. Hoje em dia, em democracias evoluídas, temos de perceber que temos de envolver as pessoas nas políticas públicas, e o Governo talvez tenha falhado, porque não concebeu desde o início as suas reformas com essa componente de que é preciso comunicá-las, é preciso envolver as pessoas”, disse.
Recorde-se que Passos Coelho advertiu que, quando o político ‘mainstream’ “lhe veste a casaca para evitar que o populismo chegue com o voto ao palácio e resolve ser mais populista do que o populista, normalmente a história mostra que a coisa não funciona”.
“O que é autêntico e genuíno sempre se manifesta e de uma forma muito mais eficaz do que o que é postiço. Então, o postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto sem caráter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o momento lhe possa fornecer. […] Mas a mesma multidão que o aplaude condena-o passado muito pouco tempo, quando o futuro que não é desejado chega”, disse.
Entretanto, primeiro-ministro comparou o seu Executivo a um “corredor de fundo” que “não pode ‘sprintar’ nos primeiros tempos”, depois de Passos Coelho ter pedido “um pouco mais de ritmo” na política portuguesa.
“Quando estamos assim no Governo, somos presos por ter cão e por não ter cão. Há os que dizem que estamos num ritmo demasiado lento ou demasiado rápido. Não estamos numa coisa nem noutra, estamos no nosso ritmo. Somos corredores com ‘endurance’, somos corredores de fundo, somos corredores que sabem que, para chegar ao fim numa maratona, não se pode ‘sprintar’ nos primeiros tempos, nem se pode ir demasiado devagar e deixá-los fugir e, depois, não os conseguir alcançar”, frisou.
[Notícia atualizada às 08h47]

“Postiços” e “prostitutos”. Passos deu recados (com Ventura de camarote)
Pedro Passos Coelho aproveitou a ocasião da apresentação de um livro para deixar recados aos políticos e especialmente ao Governo, sem nunca referir nomes, no entanto. A intervenção do ex-líder do PSD teve André Ventura, presidente do Chega, como espetador de primeira fila.
Notícias ao Minuto | 08:16 – 27/05/2026



