Alberto João Jardim, o social-democrata que esteve quase quatro décadas na liderança da Região Autónoma da Madeira, critica a gestão do Governo, assim como do PSD e considera a reforma laboral “um desastre de estratégia política”.
Numa entrevista dada ao jornal Público, o histórico líder madeirense começa por assumir que teve “pouco interesse” no congresso do PSD porque já não é nem o seu PSD, nem o de “Sá Carneiro”.
Na sua opinião, a mudança não ocorreu agora. O PSD “mudou o ADN” com Pedro Passos Coelho.
“Ainda na terça-feira falei com o Rui Rio, achei-o um pouco desanimado com isto. O Passos Coelho mudou o ADN do PSD. Eu não acredito em grandes conflitos ideológicos entre Passos Coelho e Montenegro, são aves da mesma plumagem“, defende, recordando alguns dados.
“O PSD era um partido social-democrata, personalista e descentralizador e o Passos Coelho tornou o PSD num partido conservador, economicista e centralizador. As pessoas querem qualquer coisa de novo e, como estão fartas e não aparece nada novo, agarram-se ao ruído dos extremos. O Chega não se combate com paleio de funcionário público, combate-se com a mesma linguagem do senhor Ventura. Se eu fosse líder do PSD, o que o gajo já não tinha ouvido…”, afiança.
Aos 83 anos, tal como sempre habitou o país, Alberto João Jardim não se coibe de dizer que pensa. E para o social-democrata Luís Montenegro e Passos Coelho não são só “aves da mesma plumagem”, são também “irmãos desavindos”.
Diz que o eventual regresso de Passos Coelho à política deve ser o desejo de “algum sector do atual situacionismo político do PSD que preferia o PSD ainda mais conservador e mais economicista”. E que “como Montenegro não é suficientemente conservador nem economicista para eles, não estou a ver o país a dar grandes pulos, estamos cada vez mais a divergir… Isto é um choque dentro da mesma família, são irmãos desavindos”.
O ex-presidente do Governo Regional da Madeira, admite assim que não tem “muito interesse neste PSD” porque gosta “de um partido para fazer mudanças”.
“Para mim, a política é mudar em benefício de todos, é lutar, querer coisas novas, não é gerir. Os dois principais partidos do regime não querem mudar nada, querem gerir o que está. Dá a impressão de que alguém os está a mandar gerir – e por isso é que eu dizia que é uma briga dentro da família – porque alguns não estão a gostar de como está a ser gerido o que mandaram gerir”, atira.
Já sobre o líder do PS, revela que tem “a maior impressão pessoal de José Luís Carneiro”. Porém, não o vê “a ter a força anímica para furar o tradicionalismo político do PS: jogar para um lado e para o outro e deixar tudo na mesma”.
Para Alberto João Jardim, PS e PSD deviam “tomar juízo e fazer o bloco central” que defende “há 30 ou 40 anos”. “Se eu tivesse um Porsche, dizia-me de Esquerda para poder andar a passear com o Porsche. Quem quiser que entenda. Mas penso que haver um José Luís, mais ou menos moderado… Não lhe vejo é força para dar o salto”, evidencia.
Reforma laboral feita “às pinguinhas”
Sobre a reforma laboral, o social democrata começa por salientar que “tem de se mobilizar a população e só se mobilizam as pessoas se for para coisas novas”. Ora, uma reforma laboral que põe as pessoas contra isso, não é mobilização nenhuma, é um desastre de estratégia política. Tem de encontrar uma estratégia, ela bater certo e através dela fazer a mobilização”.
E acrescenta: “não se faz uma reforma laboral assim, faz-se às pinguinhas. Mete-se uma coisa, depois outra, negoceia-se uma coisinha comum… E não se toca em coisas que as pessoas, depois dos benefícios do 25 de Abril, em que houve uns certos exageros, também não se tira assim de um dia para o outro”.
“Perguntaram-me uma vez: ‘Como é que está há tantos anos no poder?’ É simples: não se pode mentir e não criar esperanças falsas. Segundo, tem de se fazer alguma coisa para convencer as pessoas. Vão mexer num país conservador nos hábitos, numa lei laboral em tudo ao mesmo tempo? Estão malucos! Para mexer na lei laboral, vai petit à petit, l’oiseau fait son nid [pouco a pouco, o pássaro faz o seu ninho], como dizem os franceses”, conclui.
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