Uma mulher de 29 anos, e grávida de 30 semanas, morreu no passado dia 9 de junho num hospital em Minas Gerais, no Brasil, após chegar ao hospital com a tensão elevada. O obstetra que estava de plantão recusou-se a deslocar-se à unidade de saúde, apesar de alertas reiterados pela equipa no local.
O caso aconteceu no Hospital São Francisco, em Três Marias, já durante a noite. Bárbara Luana Fernandes Aleixo tinha tido uma gravidez normal até ali e seguia as instruções médicas, de medir a tensão antes de ir dormir, quando notou que os valores estavam altos. Vendo o resultado, a grávida dirigiu-se ao hospital de referência, acompanhada pela sogra, Jusimara, e uma amiga.
Chegaram à unidade de saúde pelas 20h30 e assim que a equipa médica no local verificou os níveis altos de tensão da grávida, foi-lhe dada medicação para tentar controlar os números. Foi necessário administrar uma segunda dose, dado que a primeira não fez efeito. Depois, Bárbara começou a queixar-se de dores intensas.
“Ela sentia muita dor. Foi piorando cada vez mais. Me disse que era uma forte dor na boca do estômago e que irradiava para o braço”, contou a sogra ao g1.
Primeiro contacto com o obstetra foi às 22h08
Bárbara chegou a perguntar pelo médico obstetra responsável, sentindo a sua condição piorar, e a equipa no local terá respondido que o médico estaria em casa, apesar de já ter sido contactado para se dirigir ao hospital.
Aliás, segundo a reconstrução dos acontecimentos da Polícia Civil, Higo Moreira Fonseca foi contactado pela primeira vez às 22h08 com os resultados dos primeiros exames de Bárbara. Higo considerou que os sintomas poderiam estar ligados à ansiedade da gestante, descartando o problema como uma situação de obstetrícia – e por isso não se deslocou.
Ao longo da noite, e enquanto a situação de Bárbara agravava, terão sido feitos outros quatro contatos, incluindo mensagens e chamadas telefónicas para o obstetra, por parte de diferentes membros da equipa médica no local. Ainda assim, Higo recusou sair de casa.
No hospital, Jusimara garantiu que chegou a ouvir uma das médicas a implorar que o obstetra fosse à unidade de saúde, frisando que a situação era urgente.
Com o passar das horas, o estado de saúde de Bárbara continuou a piorar, com a grávida a sentir dores intensas, a vomitar e chegando a desmaiar três vezes. A certa altura, aceitou que não iria sobreviver.
“Eu vou morrer, ela falou para mim. Quando ela estava tendo a parada [paragem] cardiorrespiratória, ela suspirou fundo, olhou para mim com aquele olhar de despedida e apagou. Eu presumo que ela morreu comigo ainda, na sala de pré-parto, sem sequer ser lavada para a emergência, onde eles chamam de Sala Vermelha”, recordou Jusimara.
Obstetra só chegou ao hospital depois das 5h
Quando Bárbara foi levada, por fim, para a Sala Vermelha, por volta das 5h, foi feita uma sexta tentativa para contatar o obstetra. Higo terá insistido que o atendimento da grávida deveria ser feito pela equipa clínica no local e terá mesmo desligado a chamada. Logo a seguir, foi feita uma nova ligação, com uma técnica de enfermagem a falar diretamente com o médico. Mais uma vez, Higo recusou ir ao hospital.
Aliás, pelas 5h17, segundo a Polícia Civil, o obstetra terá mesmo enviado uma mensagem para o grupo de WhatsApp do corpo clínico do hospital (do qual também é diretor) afirmando: “As pacientes gestantes com quadros clínicos, incluindo surtos psicóticos, sem queixas obstétricas, deverão ser conduzidas pela clínica médica”.
Quando a morte de Bárbara foi comunicada à família, pelas 5h30, Higo Fonseca tinha finalmente cedido e estava no hospital. Na altura, terá alegado que não foi possível sequer fazer uma cesariana, dado que o bebé poderia nascer com sequelas e ficar em estado vegetativo. Mãe e filho morreram.
O obstetra chegou a ser detido em flagrante delito por homicídio da gestante e do bebé, mas acabou por ser libertado preventivamente mais tarde. Neste momento, é investigado por omissão de socorro e negligência médica no atendimento da paciente.
O médico ficou proibido de frequentar o hospital onde exerce e de manter contato com testemunhas ou funcionários na unidade de saúde. Para além disso, a sua licença para exercer na rede pública de saúde foi suspensa cautelarmente.
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