Um casal de Singapura fez uma longa jornada de paternidade e adoção, que chegou finalmente ao fim quando encontraram Marcus. Quando viram o menino pela primeira vez, David e Ally dizem ter percebido logo naquele momento que estava destinado a ser o seu filho.
Meses depois, o bebé da Indonésia estava nos seus braços e a família estava pronta para começar uma vida em conjunto.
Mas agora, os pais enfrentam a possibilidade de perder o filho, pois as autoridades acreditam que a criança tenha sido vítima de tráfico humano e levado para Singapura ilegalmente.
O casal contou a história à BBC sob anonimato, pois temem afetar as hipóteses de ficarem com o filho.
A adoção de Marcus
David e Ally decidiram recorrer à adoção depois de terem passado por vários abortos. Enfrentaram uma longa espera em Singapura e então decidiram recorrer a agências estrangeiras. É estimado que dois terços das crianças adotadas em Singapura por ano tenham nascido noutros locais, geralmente em países vizinhos.
O casal pagou dezenas de milhares de dólares, uma quantia que, segundo lhes disseram, seria suficiente para cobrir todas as taxas da agência, os custos legais, as despesas com a criança e uma “quantia simbólica” para os pais biológicos.
A adoção em Singapura foi aprovada rapidamente, e o último passo era solicitar a cidadania para o bebé. Quando os funcionários da imigração os chamaram para uma reunião, esperavam boas notícias – mas em vez disso as suas vidas foram devassadas: O pedido de cidadania tinha sido suspenso, pois, segundo lhes disseram, Marcus tinha muito provavelmente sido traficado.
Era um dos cerca de 20 bebés que teriam sido comprados ilegalmente na Indonésia para adoção em Singapura nos últimos anos.
O caso chamou a atenção para a situação recorrente de tráfico de crianças na Indonésia, alimentado por pais que vendem os filhos. Gerou também várias questões sobre como Singapura, conhecido por ter um controlo rígido de fronteiras, não conseguiu detetar o suposto tráfico, tendo inclusivamente aprovado algumas das adoções.
Isso significa que eventualmente as autoridades vão ter de decidir se Marcus e as outras crianças na mesma situação devem permanecer com os pais adotivos ou retornar para os pais biológicos na Indonésia.
Para o casal, os últimos meses têm sido angustiantes. Até agora, nenhum dos dois países declarou o que acontecerá às crianças. “Existe sempre a preocupação de que Marcus possa ser levado”, confessou o pai.
Os julgamentos
Até agora, já foram feitas quase duas dezenas de detenções relacionadas com este caso de tráfico humano. Os julgamentos decorrem em Java Ocidental e as acusações envolvem a compra ilegal de crianças, bem como a sua transferência para o estrangeiro para “exploração” e falsificação de documentos (certidões de nascimento e de adoção).
Os procuradores alegam que uma mulher indonésia chamada Lie Siu Luan, que está entre os réus, é a líder do grupo. Admitiu ter fornecido bebés para adoção a pelo menos quatro contactos em Singapura, que prometeram pagar no mínimo 18 mil dólares de Singapura (cerca de 12 mil euros).
Estão a ser pedidas penas de prisão que variam de cinco a dez anos.
Mas quando o julgamento terminar e for tomada uma decisão sobre o destino das crianças, já terão passado anos sob os cuidados dos pais adotivos em Singapura.
“Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance, dentro da lei, para ficar com o nosso filho”, garantiu David, rematando: “Não vou desistir dele. Qualquer pai lutaria até ao fim”.
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