Portugal trabalha mais horas do que a média da União Europeia (UE), mas continua a produzir menos valor e este é um “problema estrutural” que “está identificado há muito”, considera o CEO do Taguspark, Eduardo Baptista Correia.
Em entrevista por escrito ao Notícias ao Minuto, Eduardo Baptista Correia sublinhou a importância do Taguspark no tecido empresarial, destacando que, lá, “nenhuma empresa está sozinha”, e traçando ainda o que vai marcar o futuro do ecossistema de ciência e tecnologia.
Ainda assim, o responsável pelo Taguspark, um parque de ciência e tecnologia localizado em Oeiras, acredita que Portugal pode ir mais longe e revela qual é a chave: “colocar as pessoas certas a trabalhar lado a lado”.
O Taguspark apresenta-se como o maior ecossistema de ciência e tecnologia em Portugal. O que falta para competir com hubs europeus de topo?
Portugal reúne condições extraordinárias. Segurança. Qualidade de vida. Geografia privilegiada. Talento muito acima da nossa dimensão.
O Taguspark – Cidade do Conhecimento, localizado em Oeiras, o concelho com a maior concentração de população com ensino superior e de empresas de base tecnológica é o maior ecossistema de ciência e tecnologia. No Taguspark, uma empresa não está sozinha. Tem centros de investigação na porta ao lado, universidades parceiras a poucos minutos e uma incubadora, onde 90% das startups que por lá passaram continuam connosco. A isto juntam-se o MAU – Museu de Arte Urbana, as Residências Artísticas e uma extensa programação de peças de teatro. Oferecemos um ecossistema que gera riqueza e conhecimento e aumenta as hipóteses de uma empresa crescer e prosperar.
Quando falamos sobre o que falta, falta-nos mais e melhor Portugal. Portugal não tem um plano para a ciência e a tecnologia com horizonte suficientemente longo. Os grandes hubs europeus não nasceram de uma ideia brilhante. Nasceram de decisões estratégicas, pensadas e mantidas durante décadas, com regras estáveis e financiamento previsível. Sem esse enquadramento, cada ecossistema constrói a sua escala sozinho e demora mais tempo a progredir. Foi assim que crescemos. Teríamos certamente chegado mais longe se houvesse uma estratégia nacional.
Um ecossistema não resolve a produtividade de um país, mas, quanto maior for a fatia da economia que assim funciona, mais depressa o país converge
Acredita que Portugal tem um problema estrutural de produtividade? Que papel podem estes ecossistemas desempenhar na mudança?
A produtividade por hora de trabalho em Portugal está 28% abaixo da média da União Europeia (UE). Não se trata de opinião, é um problema estrutural e está identificado há muito.
O que costuma passar despercebido é o outro lado da moeda. Em 2025, segundo o Eurostat, os portugueses trabalharam em média 37,4 horas por semana, contra 35,9 na média da UE. Trabalhamos mais horas e produzimos menos valor em cada uma delas. Se o problema fosse falta de trabalho, já o teríamos resolvido.
A diferença está no tipo de atividade. O valor gerado por hora depende do que se produz, não do tempo que se leva a produzi-lo. E é aqui que os ecossistemas de ciência e tecnologia pesam, porque concentram a atividade que gera mais valor por hora trabalhada.
A prosperidade constrói-se quando quem investe e quem trabalha se sentam do mesmo lado da mesa. Enquanto a discussão for sobre repartir o que existe e não sobre aumentá-lo, os ganhos de produtividade não chegam a acontecer.
Em Oeiras Valley, isso vê-se na composição do ecossistema. No Taguspark, são empresas de base tecnológica, investigação aplicada e sete áreas de incubação que vão da biotecnologia à robótica, das energias renováveis à economia azul. São setores em que uma hora de trabalho vale várias vezes mais do que a média nacional.
São também setores que exigem equipamento especializado e aí há uma vantagem de escala. Na nossa incubadora, uma startup tem acesso a laboratórios de I&D e prototipagem que nunca conseguiria montar por conta própria. Encurta-se o tempo entre uma ideia e conseguir testá-la e é nesse intervalo que a produtividade se revela.
Um ecossistema não resolve a produtividade de um país, mas, quanto maior for a fatia da economia que assim funciona, mais depressa o país converge.
O país está a conseguir reter talento qualificado ou continuamos a perder capital humano para o estrangeiro?
A conversa costuma centrar-se em quem sai. O que interessa é perceber porque não fica. Não é viável traçar rotas de desenvolvimento futuro sem uma aposta clara num modelo de ensino focado em formar jovens preparados para os desafios do século XXI. É aí que o talento se forma, muito antes de haver decisão de ficar ou de partir.
Depois há a questão de quem fica e porquê. Um jovem qualificado que olha à sua volta e vê lugares ocupados por outros critérios que não a meritocracia tira as suas conclusões. O salário conta, mas não é só isso. É perceber que há um caminho e que esse caminho depende da qualidade do trabalho de cada um, numa palavra – mérito.
Portugal não consegue competir em remuneração, no entanto, pode competir naquilo que a nossa escala permite fazer melhor do que noutros países: colocar as pessoas certas a trabalhar lado a lado. É o que procuramos fazer no Taguspark – Cidade do Conhecimento, partindo do reconhecimento de que aquilo que hoje atrai e fideliza talento é muito mais completo e abrangente. Nasce em ambientes que inspiram o bem-estar, a criatividade em equilíbrio com a natureza, numa comunidade consciente, sustentável e humana. É precisamente essa convicção que sustenta o reconhecimento de sermos o Lugar Mais Cívico da Europa.
Em Portugal, falta capital de crescimento em quantidade e em condições que permitam às empresas dar o salto sem terem de mudar de país
As startups portuguesas têm hoje melhores condições para escalar ou são limitadas pelo contexto nacional?
Portugal aprendeu a criar startups. Ainda está a aprender a escalá-las. Segundo o Startup & Entrepreneurial Ecosystem Report, havia, em 2025, mais de 5 mil startups ativas no país, mais 8% do que no ano anterior, sendo que cerca de 70% foram criadas nos últimos cinco anos.
Onde falhamos é na dimensão. O mesmo relatório mostra que 89% dessas empresas são microempresas, com menos de 10 trabalhadores, e 21% registam crescimento acelerado do emprego de forma sustentada. Criamos muito e crescemos pouco. Quando chega a fase de financiar o crescimento, entram os investidores estrangeiros. E aí continua a ser mais fácil estar em Londres, Paris ou Berlim.
O que podemos fazer, à nossa escala, é preparar as empresas para esse momento. Essencialmente convivendo e aprendendo com quem já lá chegou. Temos cerca de 190 empresas e 30 startups no ecossistema Taguspark – Cidade do Conhecimento, e mais de 90% delas trabalham em ciência e tecnologia aplicadas. Na nossa incubadora, uma startup convive com empresas de grande dimensão.
Em Portugal, falta capital de crescimento em quantidade e em condições que permitam às empresas dar o salto sem terem de mudar de país. Falta financiamento de longo prazo disposto a acompanhar uma empresa que cresce antes de gerar retorno. Projetos e qualidade técnica, não nos faltam.
Que áreas vão marcar a aposta do Taguspark nos próximos anos?
As melhores cidades perceberam que a qualidade de vida resulta menos de grandes obras e mais da excelência da gestão diária: espaço cuidado, mobilidade eficiente, segurança, civismo, inovação e resultados comprovados. No fundo, um ecossistema integrado que funciona. O Taguspark tem educação, saúde, restauração, arte e programação cultural durante todo o ano. É uma comunidade viva a funcionar e é por isso que lhe chamamos Cidade do Conhecimento.
A aposta dos próximos anos passa por reforçar todas estas vertentes. Na cultura, com o MAU – Museu de Arte Urbana e as Residências Artísticas, que trouxeram a arte contemporânea para o espaço público e para a rotina de quem aqui trabalha. No civismo, que para nós está longe de ser apenas um detalhe: afirmamos o Taguspark como o Lugar Mais Cívico da Europa e isso passa pelas excelentes condições criadas para quem aqui vive e trabalha diariamente.
É importante sublinhar que uma empresa não escolhe apenas um edifício. Escolhe o lugar onde as suas equipas vão passar grande parte do dia e esse fator pesa cada vez mais na atração e fidelização de talento. Quem não perceber isto competirá só por preço.
Criámos um ambiente único, essa é a nossa principal fonte de valor.
A ligação entre universidades, empresas e investidores está a funcionar em Portugal? O que ainda falta fazer?
Há muito potencial, mas ainda existe uma distância demasiado grande entre universidades e empresas. E essa distância começa, desde logo, pela falta de confiança e de conhecimento mútuo. As empresas nem sempre olham para as universidades como parceiros naturais para investigar, inovar ou resolver problemas concretos. E as universidades continuam, muitas vezes, demasiado afastadas das necessidades reais das empresas.
Falta uma estratégia nacional que promova verdadeiramente esta ligação. Não através de iniciativas pontuais ou de protocolos, mas criando mecanismos permanentes de investigação partilhada, projetos desenvolvidos em conjunto e maior circulação de pessoas entre os dois mundos.
Os mestrados e doutoramentos de base empresarial são um bom exemplo. Existem, mas continuam a ter uma dimensão muito inferior àquela que poderiam e deveriam ter. Um doutorando que desenvolve investigação dentro de uma empresa, perante um problema real, aproxima imediatamente ciência, conhecimento e economia. Precisamos deste tipo de ligação.
O mesmo se aplica à criação de novas funções e carreiras que permitam às pessoas circular entre universidades, centros de investigação e empresas sem que essa passagem seja uma exceção. Hoje, grande parte destas experiências depende ainda da iniciativa individual de uma instituição, de um professor ou de uma empresa.
No Taguspark vemos diariamente o potencial dessa proximidade. Temos ensino superior, investigação, startups e empresas a partilhar o mesmo ecossistema. O que acontece naturalmente num ecossistema como o nosso deveria fazer parte da estratégia do país.
Portugal não tem falta de conhecimento, nem de empresas capazes de inovar. Falta construir as pontes que permitam que trabalhem muito mais vezes em conjunto.
Portugal pode criar todos os programas, incentivos e estratégias que quiser. Se depois demorarmos demasiado tempo a executá-los, chegamos sempre atrasados. E, na inovação, chegar atrasado é muitas vezes o mesmo que não chegar
As políticas públicas estão alinhadas com as necessidades da inovação e das empresas? O que mudaria?
Nem sempre. E há uma razão particularmente importante: os tempos da inovação e os tempos da burocracia são incompatíveis.
O desenvolvimento científico e tecnológico é rápido por definição. Uma tecnologia evolui, uma oportunidade aparece, um mercado muda, um concorrente avança. Quem está a inovar precisa de conseguir decidir, testar, investir e corrigir rapidamente.
A Administração Pública funciona, demasiadas vezes, noutro ritmo. Processos longos, sucessivos pareceres, autorizações, dúvidas, pedidos adicionais e tempos de decisão difíceis de prever. Uma empresa pode esperar meses por uma resposta a uma decisão que precisava de tomar em semanas.
O problema não é defender a inexistência de regras. O problema é quando a regra deixa de proteger o interesse público e passa a constituir um impedimento ao normal funcionamento dos projetos.
Na ciência e na tecnologia isto é particularmente penalizador, porque uma oportunidade adiada é normalmente uma oportunidade perdida. O conhecimento não fica parado à espera de uma autorização administrativa. A tecnologia também não e os mercados muito menos.
Por isso, a mudança urgente começa pela simplificação e, sobretudo, pela redução dos tempos de decisão. Menos etapas, responsabilidades mais claras e prazos efetivos para quem decide.
Portugal pode criar todos os programas, incentivos e estratégias que quiser. Se depois demorarmos demasiado tempo a executá-los, chegamos sempre atrasados. E, na inovação, chegar atrasado é muitas vezes o mesmo que não chegar.
Como é que o Taguspark equilibra o crescimento económico com impacto cultural e social?
Não equilibramos porque não há nada para equilibrar. A pergunta parte de uma ideia que não subscrevemos: a de que a cultura e a responsabilidade social são custos que a economia suporta. Não são. Potenciam-na.
O MAU – Museu de Arte Urbana colocou a obra de artistas contemporâneos na rota por onde as pessoas passam todos os dias, sem terem de entrar num espaço em particular e pagar um bilhete. As Residências Artísticas trazem criadores que ficam meses a trabalhar no nosso ecossistema. E o Fora d’Horas assegura teatro e música para lá do horário laboral. Uma empresa que se instala numa comunidade assim tem argumentos para recrutar que não constam do contrato de trabalho.
Há ainda um conjunto de compromissos que ninguém nos impõe e que consideramos essenciais. Definimos cinco pilares de civismo para o Taguspark e nenhum deles nasceu de um cálculo de retorno.
O primeiro é o comportamento cívico. Zero beatas no chão. Zero lixo. Zero carros mal estacionados. Zero desperdício de água e energia. Parece pequeno. Não é. Um espaço cuidado muda a forma como as pessoas se comportam nele.
O segundo é a dignidade laboral. Garantimos remunerações dignificantes e condições de trabalho a quem faz a limpeza, a jardinagem, a manutenção e a segurança, por acordo com as empresas fornecedoras. Fazemo-lo com a convicção de quem trabalha merece um salário que dignifique.
Os outros três são ambientais. Um ambiente saudável, com espaços verdes, boa qualidade do ar e ruído reduzido. A separação de resíduos, com projetos de economia circular. E a independência energética: 1.556 painéis fotovoltaicos instalados, uma redução de 25% na dependência da rede elétrica e menos 251 toneladas de CO₂ por ano.
Nada disto é filantropia, foi feito porque é assim que idealizamos o Taguspark – Cidade do Conhecimento. A atração de empresas e pessoas é a consequência e não o motivo. Quando as escolhas são coerentes, o crescimento económico e o impacto social convergem.
Como imagina o Taguspark e o papel de Portugal na inovação daqui a 10 anos?
Crescer é a parte fácil. Difícil é crescer sem deixar de ser aquilo que somos: a cidade onde o conhecimento, a investigação, as empresas e a cultura ocupam o mesmo espaço, isso levou anos a construir.
Imagino uma incubadora maior e mais internacional. Uma oferta cultural que continue a crescer em ambição e em alcance, mais inovação de nível mundial, um maior arrojo arquitetónico e a solidificação do posicionamento “Lugar Mais Cívico da Europa”.
Quanto ao país, sou exigente. É desorganizado e pouco ambicioso e isso atrasa-nos, faz-nos perder peso, influência, gente de talento, normalizando gradualmente cada uma dessas perdas.
E não é por falta de diagnóstico. Sabemos há décadas o que temos de fazer. O que nos falta é decidir fazê-lo, e sustentar essa decisão para além do ciclo político em que foi tomada. A alternativa também não tem data. Tem direção. Menos burocracia e mais decisão. Menos complacência e mais exigência. Declínio não é o destino. É o resultado de continuarmos a adiar.
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