António Vitorino comentou, na noite de quarta-feira, os impasses no Médio Oriente, nomeadamente os entraves das negociações bilaterais da abertura do Estreito de Ormuz, o armamento e o acordo de defesa entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia.
Sobre esta última questão, o antigo diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM) considerou, no seu espaço de comentário na SIC Notícias, que os “Estados Unidos têm tido um papel bastante lateral”. “O essencial do protagonismo está entre o Irão e Omã. Mas até este momento não há sinais de que tenha havido um aumento do volume de tráfego no Estreito de Ormuz, pelo contrário”, continuou.
“Nestas três semanas houve duas coisas que se passaram: a primeira foi que no Irão o poder real foi entronizado – ficou claro que é a Guarda Revolucionária que controla as instituições no Irão e que viu fortalecido o seu posicionamento no país, sendo que a linha anti-negociação com os Estados Unidos saiu mais consolidada, o que torna mais difícil antever a curto-prazo a possibilidade de um acordo que ponha fim ao conflito”, referiu.
Continuando: “O presidente Trump tem oscilado, entre aquele discurso da decapitação do Irão e o discurso do ‘ai agora estou mais calmo porque a economia fará com que eles tenham de vir à mesa das negociações’, mas o que vemos do lado do Irão é que repescaram a ideia das indemnizações de guerra. A situação económica do Irão é desgraçada, de facto, mas já é desgraçada há vários meses e isso não tem de conduzir o Irão a ser mais maleável nas negociações com os EUA”.
Depois, enunciou um “fenómeno novo”, sobre o armamento e a eventual resposta militar dos Estados Unidos contra o Irão. “Estes equipamentos estão reduzidos e a sua reposição levará entre 18 meses a três anos. Isso deixa Israel e os Países do Golfo preocupados com a capacidade dos EUA de lhes fornecerem estes equipamentos e depois a prioridade americana é repor os seus próprios stocks e isto traz más notícias também para a Ucrânia”.
O socialista sublinhou ainda de que, o facto político mais relevante dos últimos meses relativamente ao Irão, é o acordo de defesa entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia. “Aparentemente é um acordo que está aberto até a outros países e fala-se na hipótese de o Egito aderir. Mas é um acordo que tem uma cláusula de defesa coletiva (inspirado no artigo 5.º da NATO), do ponto de vista operacional e militar não tem neste momento grande tradução, mas politicamente é um sinal muito claro do desacordo destes países com a estratégia que Donald Trump tinha definido no seu primeiro mandato – os chamados acordos de Abraão – cuja joia da coroa era fazer com que a Arábia Saudita também se juntasse ao grupo dos subscritores dos acordos, o que significaria um reconhecimento do Estado de Israel. Portanto esta iniciativa são más notícias para os Estados Unidos e para Israel”, referiu.
António Vitorino remata com o facto de estar convencido que o ataque do Hamas de 7 de Outubro “foi desencadeado naquele momento para impedir que esse acordo com a Arábia Saudita fosse celebrado”.
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