O líder do Chega, André Ventura, desvalorizou as vozes que duvidam da autenticidade do alegado ato de vandalismo no seu gabinete da Assembleia da República (AR), tendo salientado que, “em qualquer outro cenário, seria uma crise enorme de regime e de democracia”. O parlamentar foi mais longe, atirando que, “um dia, se levar um tiro”, haverá quem diga que pediu “a alguém para [lhe] dar um tiro para ganhar votos”.
“Quando fui para o hospital, em maio do ano passado, havia pessoas a dizer que tinha fingido um problema de saúde para ter votos. Agora, apesar de estas imagens serem evidentes do que é que aconteceu, tentam dizer que foi um deputado do Chega ou que mandei alguém lá ir fazer isto. É absolutamente ridículo e um pouco até constrangedor. Há pessoas para quem tudo o que me acontece é sempre uma grande orquestração nacional. Um dia, se eu levar tiro, eu pedi a alguém para me dar um tiro para ganhar votos. Não me preocupo com isso, fiz o que era certo”, frisou, esta quarta-feira, em declarações à CNN Portugal.
Apesar de admitir “que tudo na vida é possível”, quando confrontado com a eventualidade de um deputado do seu partido estar por detrás do assalto, que ocorreu na terça-feira, Ventura considerou que, “em qualquer outro cenário, [o caso] seria uma crise enorme de regime e de democracia”. “Sendo o Chega, não interessa”, lamentou.
“Gostava mesmo que levassem isto até ao fim e que vissem quem é que tem interesse em que isto acontecesse”, apelou, após ter recordado que desapareceram dados referentes à proposta de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, assim como documentos relacionados com o primeiro-ministro, Luís Montenegro.
De qualquer modo, Ventura asseverou que, se estivesse a par da autoria do ato de vandalismo, “já o teria dito”, e deu conta de que também estão em falta documentos sobre o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP).
“Mal olhei para as coisas, percebi que faltavam pelo menos dois lotes. Eu disse-o à Polícia Judiciária (PJ). [Também desapareceram] documentos sobre o SIRESP, que foram entregues por quem quis mostrar-nos a pouca vergonha no SIRESP”, revelou.
E reiterou: “Se o Chega fosse um partido de Esquerda ou se isto acontecesse ao Partido Socialista (PS) ou ao Livre, era uma máfia organizada, tinha caído o país, direitos humanos. Como é o Chega, isto é uma orquestração deles para se vitimizarem. É vergonhoso e lamentável.”
“Já tive ameaças dentro do gabinete, já tive ameaças à porta do gabinete”
Ventura não poupou críticas aos trabalhadores do Parlamento e ao presidente da AR, José Pedro Aguiar-Branco, uma vez que não o informaram que o seu gabinete “estava assim, apesar de já saberem, porque estavam lá”. De acordo com o parlamentar, quem o informou foi o deputado do Chega Francisco Gomes, que estaria no local para gravar um vídeo para a rede social TikTok.
“Aquilo que a SIC fez ontem ao deputado Francisco Gomes é uma coisa absolutamente miserável, de dizer que era suspeito, porque tinha sido visto a entrar às 7h00 no Parlamento. Desculpem lá se os deputados do Chega trabalham. O Francisco Gomes chega todos os dias, como toda a gente sabe, muito cedo. O Francisco Gomes tem vídeos publicados todos os dias, ou quase todos os dias, como toda a gente que segue as redes sociais dele sabe, na Sala Acácio Lino, que é a sala ao lado do meu gabinete, que liga ao meu gabinete”, enumerou.
Nessa linha, o líder do partido de extrema-direita lançou que, “se o país entender ou se houver pessoas na PJ que entendam que o melhor é culpar o Chega e dizer que o Chega é que criou isto tudo, vão continuar a desaparecer coisas no Parlamento, […] até acontecer com um partido de Esquerda e cair o mundo inteiro”.
Pese embora já tenha sido confrontado com ameaças “que deixaram dentro do gabinete”, Ventura confessou que, “conforme foi dito ainda ontem pelo ex-deputado Duarte Pacheco, a tradição no Parlamento é que as portas fiquem abertas, porque entendemos que é um espaço que, em princípio, não oferecerá grandes questões de segurança”.
“Fui ameaçado no gabinete. O Ministério Público tem ameaças que me fizeram e que deixaram dentro do gabinete. Devia ter câmaras no gabinete, devia ter as coisas fechadas? Se calhar. Também não fui tão diligente como devia ter sido. Agi, sobretudo, de boa-fé. Achei que, no Parlamento, aquilo tinha algum sentido de filtro. Aparentemente, isso não aconteceu. Já tive ameaças dentro do gabinete, já tive ameaças à porta do gabinete e, agora, tivemos dentro do gabinete coisas roubadas”, disse.
Ventura não se coibiu de agradecer ao social-democrata por ter relatado que o seu portátil foi furtado no seu gabinete, “com documentos também políticos, à hora de almoço, sem que nunca se tenha chegado a conclusão nenhuma”, ainda para mais sendo crítico do partido.
“O Parlamento tem segurança policial 24 horas por dia. Há rondas policiais que passam pelos gabinetes e pela zona do hemiciclo, e não esperamos que na casa da democracia haja pessoas que entrem nos gabinetes dos outros para lhes roubar documentos, destruir coisas ou levar provas”, complementou.
De notar que, na terça-feira, a PJ confirmou ao Notícias ao Minuto que “tomou conta da ocorrência” e que está “a desenvolver diligências através da Unidade de Contraterrorismo”.

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Ana Teresa Banha | 11:06 – 29/07/2026



