O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho voltou a criticar a falta de reformismo do atual Governo e acusou tanto o Executivo de Luís Montenegro como o anterior, de António Costa, de contarem “histórias da Carochinha” aos portugueses.
As declarações do antigo governante foram feitas no colóquio “Governação em Contexto de Crise”, organizado pela Associação Académica da Universidade Lusíada. Um evento que, revela o jornal Observador, era de entrada livre, mas vedada aos jornalistas.
Durante a sua intervenção, Passos Coelho lamentou o rumo escolhido por Luís Montenegro para gerir o país e que este se recuse a compreender a lição da crise que obrigou à intervenção da troika em Portugal.
Para o social-democrata, sem reformas estruturais e sem coragem para explicar às pessoas a necessidade das mesmas, o país está condenado a enfrentar mais crises.
Passos Coelho acusou António Costa de mascarar os problemas e não reformar o país apenas e só para manter o cargo de primeiro-ministro. “Tenho muitas dúvidas de que António Costa seja avesso a transformações. O que não esteve foi para as promover, porque isso podia custar-lhe o lugar”, atirou.
Já sobre Luís Montenegro, o ex-chefe de Governo realçou que este tem alguma vontade de fazer reformas mas fá-lo sem “profundidade, velocidade ou consequência”.
“É mesmo preciso saber como é que se faz [nas reformas estruturais] e convencer as pessoas de que é preciso mudar”, apontou Passos Coelho no colóquio.
“A maior parte dos políticos são populistas. Fazem sondagens, veem do que é que as pessoas gostam e alinham-se por aí. Dizem o contrário, mesmo que pensem diferente”, queixou-se.
Para Passos Coelho, os políticos estão reféns da ideia de que têm de “agradar às pessoas” mas “liderança é respeitar quando não se é seguido, mas não aceitar ir atrás de qualquer coisa. Liderança é dizer o que se tem de fazer”.
“É por isso que supostamente são líderes e têm essas responsabilidades. Não é para nos contarem histórias da Carochinha. Já devíamos ter aprendido com isto e parece que não aprendemos. Portanto, é deixar de contar histórias da Carochinha, falar das coisas, falar dos problemas que temos. Não é ser pessimista, é querer resolvê-los. Só podemos mobilizar o apoio das pessoas para mudar alguma coisa se lhes dissermos que alguma coisa precisa de mudar. E explicar porquê”, arremessou.
“Sinto-me sempre completamente gozado”
E foi mais longe, dando um exemplo que considerou ser “caricato”: os bónus aos pensionistas.
“Sinto-me sempre completamente gozado”, afirmou, enquanto responsabilizava o atual e o anterior governo de ignorarem o problema de sustentabilidade do sistema de Segurança Social.
“Porque é que estão a distribuir dinheiro se dentro de 10 anos a gente não sabe se tem lá dinheiro para pagar as pensões?”, questionou, sublinhando que “quando andamos a mascarar a situação, não tratamos as outras pessoas como se fossem inteligentes, adultas e merecedoras da nossa confiança”.
“Se de Belém a São Bento, passando por Bruxelas, todos dissermos ‘não há nenhum problema com as pensões, nem com a sustentabilidade das pensões’, que é o que se diz, fica difícil que as pessoas percebam o que é preciso fazer, não é?”, perguntou, de forma retórica.
Dando o exemplo da troika, Passos Coelho defendeu ainda que “não podemos permitir que sejam as pessoas a saber das más notícias pelas piores razões”.
“Termos chegado àquela situação em 2010 e 2011 foi um clamoroso falhanço da liderança política. E há responsáveis por isso. O país não precisava de passar por aquilo porque houve com muito muita antecedência quem chamasse a atenção de que aquilo ia acontecer. E ninguém quis saber. As pessoas esperam que aqueles que têm a responsabilidade e a liderança desses processos chamem a atenção”, reclamou, aclamando que “é por isso que supostamente são líderes e têm essas responsabilidades”.
“Já não tenho mesmo paciência para histórias da Carochinha”, concluiu.
Leia Também: Chega quer baixar idade da reforma? “Absurdo. Nem os socialistas…”



